Recentemente, em dois momentos mediados por poucos dias, a SIC trouxe para o espaço público o drama dos idosos abandonados pelas famílias nos hospitais, as falhas no sistema assistencial, as dificuldades e a desvalorização social do papel dos mais velhos, que não se explica pela habitual desculpa de falta de dinheiro, mas antes por falta de visão e de prioridade política.
Entre a minha primeira infância, passada em Luanda, e a minha adolescência, passada em Lisboa, recordo o profundo contraste como os mais velhos eram olhados socialmente.
Em África, marcada por uma cultura de transmissão oral, mesmo entre a comunidade de origem europeia, o vizinho mais idoso era tratado por “velho”, como sinal da mesma deferência com hoje alguém se refere a um vizinho como o general, o juiz, o doutor, o engenheiro ou o arquiteto.
Na minha adolescência, passada na Lisboa dos anos 80, contaminada pela cultura do físico, celebrada pela canção “Physical”, interpretada por Olivia Newton-John, passou-se a valorizar a juventude. Nesse contexto, em meados dessa década, a juventude passou a ser elevada a pasta governativa no X Governo Constitucional, através de uma secretaria de Estado.
A expressão “velho”, sinal de deferência pela pessoa idosa no período da minha primeira infância, passou a ser entendida quase como ofensiva, dando origem à expressão “velhos são os trapos”, habitual réplica de um cidadão mais velho, que passou a referir-se socialmente a alguém seu contemporâneo como “rapaz” ou “rapariga”.
A desvalorização social dos mais velhos deu origem a fenómenos de idadismo, onde estes cidadãos são objeto de discriminação, através da desvalorização do seu papel social, com consequências na definição de políticas públicas desfocadas das suas necessidades.
As estimativas globais das Nações Unidas apontam para um envelhecimento global da população mundial, que, nos dias de hoje, se expressa com maior acuidade nos países mais desenvolvidos. Segundo os Censos de 2021, em Portugal a população com 65 e mais anos correspondia a 23,7% da população residente, tornando o País no segundo mais envelhecido da Europa, só ultrapassado por Itália, com 23,8% de população idosa.
De acordo com as estimativas mais recentes do INE, em 2024 o fenómeno do envelhecimento acentuou-se relativamente a 2021. Os idosos passaram a representar 24,3% do total da população em Portugal.
Nos grandes centros, apesar da forte atratividade de população migrante, que mitiga a evolução do envelhecimento, segundo as mesmas estimativas para 2024, os idosos representavam, nas cidades de Lisboa e Porto, respetivamente, 23% e 25,8%.
O envelhecimento da população tem vindo a ser acompanhado por uma profunda alteração da composição familiar. De acordo com os Censos de 2021, em Lisboa são preponderantes as famílias compostas por uma e por duas pessoas, que, respetivamente, representam 35,24% e 32,40% do total de famílias. No primeiro grupo, uma pessoa, quase metade (45,5%) correspondem a idosos que residem sozinhos e, igualmente, no segundo grupo, duas pessoas, quase metade (47,4%) correspondem a casais de idosos que residem sós. Estes números revelam que, em 2021, a esmagadora maioria dos idosos residentes na cidade de Lisboa (85,69%) viviam sem apoio familiar direto, por viverem sós ou na companhia de outro idoso.
Em 2015, a OCDE produziu o relatório “Ageing in Cities, Policy Highlights”, onde estudou a tendência de envelhecimento da população de cidades em diferentes países mais desenvolvidos, para o qual contribui, no que se refere ao estudo de caso sobre a cidade de Lisboa.
Esse relatório conclui que o envelhecimento da população não constitui um problema em si mesmo, é resultado do desenvolvimento socioeconómico, podendo proporcionar oportunidades de crescimento, designadamente por via do desenvolvimento tecnológico. Demonstra que, ao contrário dos impactes resultantes de catástrofes naturais e crises financeiras, o envelhecimento é um fenómeno previsível, que permite antecipar políticas urbanas que preparem as nossas cidades
Para o efeito, é necessário preparar as nossas Cidades para a tendência global de envelhecimento da população, promovendo estratégias locais multidimensionais, que atuem no contexto social, físico e económico.
No contexto social, é importante revalorizar o papel da pessoa idosa, criando espaços de encontro entre gerações, recuperando a tradição de transmissão oral, enquanto testemunha dos factos e contextos históricos vividos, bem como dimensionar as redes e as respostas dos equipamentos coletivos para as necessidades de uma população em envelhecimento.
Na dimensão física, destaca-se a atualização das estratégias de reabilitação urbana, com principal foco na acessibilidade aos edifícios, ao espaço público e ao sistema de transportes, no conforto térmico e acústico das habitações, no combate à pobreza energética e de criação de refúgios climáticos, que protejam os mais vulneráveis aos efeitos das ondas de calor, cada vez mais frequentes.
Na dimensão económica, aproveitando a possibilidade de economia de escala acrescida pela atratividade de Portugal na fixação de idosos oriundos do centro e norte da Europa, a emergência de ecossistemas de inovação ligados às novas tecnologias digitais e o desenvolvimento das especialidades médicas, os nossos principais centros urbanos podem posicionar-se para o desenvolvimento de serviços inovadores, com potencial exportador e fixadores de mão de obra qualificada.
O envelhecimento da população tem de deixar de ser olhado como um problema, para passar a ser encarado como uma conquista das sociedades de bem-estar e uma oportunidade para o nosso futuro coletivo.