Petróleo regista das maiores quedas desde 1991 após cessar-fogo

É das maiores quedas em 35 anos e a maior desde a pandemia da Covid-19. Mil navios continuam à espera de passar no estreito de Ormuz. Mundo respirou de alívio com fumo branco, mas há muitos sinais contraditórios a chegar do terreno: ainda é cedo para cantar vitória.

Petróleo regista das maiores quedas desde 1991 após cessar-fogo
Donald Trump

O petróleo registou das maiores quedas diárias no espaço de 35 anos após o anúncio de cessar-fogo de duas semanas entre os EUA/Israel e o Irão.

É preciso recuar a 1991 durante a primeira Guerra do Golfo para registar uma queda tão grande, quando o Iraque invadiu o Kuwait e os aliados libertaram o país das garras de Saddam Hussein.

Pelo meio, só durante a pandemia houve uma queda tão grande: quando o mundo parou os preços afundaram mais de 30% numa única sessão em março de 2020, com a queda abrupta do consumo pela paragem da economia mundial. Um mês mais tarde, o petróleo bateu no fundo ao atingir os 22 dólares em abril de 2020.

Na quarta-feira, o preço do barril chegou a cair mais de 15% para 91 dólares na quarta-feira, com o preço do gás a afundar 18% para 44 euros/MWh. É um grande alívio para a economia mundial com a crise energética que já pesa sobre os preços.

Mas ainda é muito cedo: há mil navios à espera de passar no estreito de Ormuz. Os fluxos marítimos e energéticos vão demorar tempo a recuperar, se tudo correr na melhor das hipóteses. A ver.

Mas há muitos sinais contraditórios a chegar do terreno. Teerão não gostou do facto de Israel ter continuado a atacar o Líbano e decidiu voltar a travar a passagem de navios no estreito de Ormuz, após a passagem de dois petroleiros.

Na Arábia Saudita, o crucial pipeline East-West foi atacado. O oleoduto transporta petróleo do Golfo Pérsico até à costa do Mar Vermelho permitindo a exportação sem passar pelo estreito de Ormuz.

Os EUA e o Irão aceitaram um cessar-fogo de duas semanas. O Paquistão foi o mediador do acordo. Os dois países vão encontrar-se na capital do Paquistão na sexta-feira para negociar um acordo de paz.

O Irão vai coordenar a passagem de navios pelo estreito de Ormuz, com Donald Trump a dizer que a reabertura foi condição essencial para o acordo de cessar-fogo.

O anúncio teve lugar horas antes de terminar o ultimato de Donald Trump. “Uma civilização inteira vai morrer esta noite (…) eu não quero que aconteça, mas provavelmente vai”, chegou a ameaçar.

O presidente norte-americano declarou “vitória total e completa. 100%. Sem dúvidas. Reabertura completa imediata e segura” do estreito de Ormuz. “É um grande dia para a Paz Mundial. O Irão também o quer”, declarou Donald Trump, com os EUA a ajudar.

“Muito dinheiro vai ser feito. O Irão pode iniciar o processo de reconstrução. Vamos carregar fornecimentos e ficar ‘à espreita’ só para garantir que tudo corre bem. Estou confiante”, disse o presidente norte-americano.

Israel também concordou com o cessar-fogo, mas vai manter as suas operações no Líbano.

Já o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão garantiu que se os ataques contra o seu país pararem, Teerão vai parar com as suas operações defensivas.

Washington aceitou o plano de 10 pontos do Irão como “base para as negociações”, segundo Abbas Araghchi, com Teerão a analisar a proposta de 15 pontos dos EUA.

A China também esteve envolvida nas negociações, com Pequim a Trump a confirmarem o envolvimento.

“A China tem estado a trabalhar para um cessar-fogo e o fim do conflito”, segundo a embaixada chinesa em Washington disse à “CNN”.

“Esperamos que esta seja uma oportunidade para a paz, para resolver diferenças através do diálogo e colocar um fim precoce ao conflito”, segundo a porta-voz da embaixada.

O que vai acontecer no estreito de Ormuz após o cessar-fogo?

– Em tempos de paz, cerca de 135 navios transitavam diariamente pelo estreito.

– Um total de mil navios e 20 mil marinheiros estão presos no Golfo Pérsico desde que a guerra começou no final de fevereiro e o Irão fechou o estreito de Ormuz.

– A maioria (426) corresponde a petroleiros que transportam tanto crude como combustíveis, mas também existem 238 graneleiros, entre outros.

– Um grupo de 15 países está a preparar-se para realizar escoltas de navios no estreito de Ormuz, mas somente quando houver condições de segurança.

– França é um destes países e a operação será “unicamente defensiva”, segundo Emmanuel Macron.

– O plano de cessar-fogo vai permitir ao Irão e a Omã cobrar portagens nos navios que atravessem o estreito. O dinheiro do lado iraniano será usado para a reconstrução do país, segundo a “Associated Press” que cita uma fonte envolvida nas negociações.

– Donald Trump garantiu que os EUA vão ajudar na normalização do tráfego no estreito de Ormuz.

– “Reabertura completa imediata e segura” do estreito de Ormuz, declarou Donald Trump.

– A Ásia é o destino principal para o petróleo e gás do Golfo Pérsico, com a China a ser o maior comprador. Também o Japão e a Coreia do Sul são altamente dependentes desta região, com 95% e 70% das suas importações energéticas a virem desta região. Outro grande comprador é a Índia. Já a Europa pesa apenas 10% nas exportações da região.

– 20 milhões de barris de petróleo e combustíveis passava diariamente por aqui, escoando a produção de grandes produtores como a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar ou Iraque.

– O Iraque já disse aos negociadores e refinadores que podem começar a recolher carga depois da reabertura do estreito, pois a carga iraquiana estava “isenta de quaisquer potenciais restrições”.

-“É bom ver que o mercado está a reagir assim, mas isto é apenas o primeiro dia de uma tentativa de cessar-fogo. Devemos ver o regime iraniano a controlar quem passa, quem é cobrado e quem é rejeitado”, disse à “Bloomberg” Michael Pregent, ex-responsável de inteligência do Governo dos EUA.

-“Os fluxos marítimos globais não são ligados em 24 horas. Os armadores, seguradores e tripulações precisam de acreditar que o risco foi realmente reduzido, não apenas suspenso”, segundo Jennifer Parker, professora na Universidade da Western Australia.

-A consultora Geopolitics of Natural Gas diz que é “altamente incerto que o cessar-fogo se mantenha”. “Apesar de o risco de escalação ter sido reduzido e algumas cargas de gás passarem no estreito de Ormuz nos próximos dias providenciarem um alívio parcial, o risco de disrupções de longo prazo continuam elevados”, com o risco a ser mitigado somente com “evidências de progresso material nos próximos 15 dias durante as negociações”.

Paz no Médio Oriente? Ainda é cedo para cantar vitória

Um cessar-fogo de duas semanas no Golfo Pérsico foi anunciado antes de terminar o ultimato de Donald Trump.

Apesar da boa reação dos mercados internacionais, desesperados por boas notícias, os analistas avisam que ainda é muito cedo para cantar vitória, isto é, para considerar que a paz vai ser efetivamente alcançada entre EUA/Israel e Irão.

Os alemães do Allianz GI consideram que a “incerteza quanto à duração da trégua mantém-se”, mesmo assim espera uma reabertura do estreito de Ormuz, aliviando as “preocupações” com o abastecimento e cortando o preço do petróleo para 95 dólares por barril.

Ao nível dos bancos centrais, vai dar mais tempo para que avaliem as “implicações para o crescimento e a inflação deste último choque na oferta, reduzindo o risco de subidas das taxas de juro já este mês”, segundo o economista-chefe Christian Schulz.

Por sua vez, o BNP Paribas destaca que, apesar de não haver até ao momento constrangimentos físicos na Europa, o mercado, ainda assim, deverá “continuar sob pressão nas próximas semanas, sendo já referida no setor da aviação uma visibilidade limitada quanto à disponibilidade de combustível para além de um horizonte de 5 a 6 semanas”.

A Ebury, por seu turno, considera que os investidores estão “satisfeitos por o pior cenário catastrófico ter sido evitado e encorajados pela promessa de que o transporte de petróleo através do Estreito de Ormuz será em breve retomado”.

Com as negociações entre os EUA e o Irão a arrancarem na sexta-feira na capital do Paquistão, “a questão fundamental será se isto irá trazer uma paz duradoura, ou se o cessar-fogo de terça-feira serviu apenas para adiar o problema. Suspeitamos que os participantes no mercado não se comprometerão totalmente com uma postura de apetência pelo risco, nem que os futuros do petróleo ou o dólar regressem aos níveis pré-guerra, até que seja alcançado um acordo permanente”, , segundo Matthew Ryan da Ebury.

No estreito de Ormuz, os prémios de seguro continuam “extremamente elevados” e existe o risco de novos ataques. A volatilidade deverá manter-se elevada nos próximos dias, “à medida que os investidores analisam minuciosamente tanto os pormenores das negociações como os dados relativos ao tráfego marítimo. Caso as negociações fracassem ou a atividade através do estreito permaneça reduzida, os preços do petróleo e o dólar poderão inverter a tendência com bastante rapidez”.

Por parte do banco suíço UBS, o economista-chefe Paul Donovan avisa que os “mercados estão inclinados a interpretar o cessar-fogo como um fim definitivo do conflito. No entanto, o baixo nível de confiança do Irão no compromisso da administração dos EUA com os acordos significa que é importante analisar os motivos desta mudança”.

O analista aponta que, se a mudança de rumo por Donald Trump tiver sido motivada pela política interna dos EUA, “isso poderá indicar um acordo mais duradouro. A crise de acessibilidade agravou-se com o preço da gasolina acima de 4 dólares por galão nos EUA. O apoio interno à guerra era baixo. Os Republicanos sofreram uma derrota significativa na eleição para o Supremo Tribunal do Wisconsin (um estado decisivo nas eleições)”.

Sobre a portagem que o Irão pretende cobrar no estreito de Ormuz, deverá ser de 1 dólar por barril, o que é “economicamente insignificante. O que realmente importa é onde esse dinheiro será gasto (quase certamente não nos EUA). Este fluxo de fundos também é relevante ao considerar a reconstrução e o rearmamento na região do Golfo — presumivelmente financiados por receitas do petróleo e possivelmente por fundos soberanos. Se a região estiver agora menos inclinada a comprar produtos ou ativos dos EUA, os petrodólares poderão ser convertidos”.

Paul Donovan também destaca que a “guerra desencadeou também mudanças estruturais — um novo impulso às energias renováveis, possível investimento em rotas alternativas ao Estreito de Ormuz, e uma reavaliação das prioridades no investimento em defesa”.

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