Ricardo Mendes: “Há conflitos em que decidimos não nos envolver”

Do Técnico para a guerra da Ucrânia, O CEO da Tekever, fabricante português de drones avaliado em 1,2 mil milhões de euros, fala dos desafios deste mercado e de como as empresas nacionais têm tudo para vingar nesta indústria.

Ricardo Mendes: “Há conflitos em que decidimos não nos envolver”
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Ricardo Mendes, CEO da Tekever, o unicórnio avaliado em 1,2 mil milhões de euros, esteve no Innov.Club para partilhar o trajeto da empresa portuguesa.

Este especialista foi o último convidado do Innov.Club, é especialista em engenharia de software e informática, formou-se no Instituto Superior Técnico e veio ao Innov.Club explicar como a Tekever nasceu longe do mercado da Defesa.

O Innov.Club é um clube exclusivo promovido pela Vieira de Almeida e Beta-i que visa promover a inovação e a partilha de conhecimento entre as organizações em Portugal e no qual o JE é parceiro.

A Tekever começou em 2001. Se pudesse viajar no tempo e contar a si próprio o percurso feito até aqui, o que iria surpreender mais o Ricardo Mendes do início do século?
O Ricardo de 2001 tinha 23 anos e sabia muito pouco sobre a vida e sobre o que estava a fazer. Éramos todos miúdos, com muito sangue na guelra, com muita vontade de mudar o mundo mas nenhum de nós sabia o quão difícil é criar uma organização com escala mundial, que a Tekever hoje tem, e em mercados tão difíceis como aqueles em que estamos. Respondendo à sua pergunta, a primeira mensagem seria: “Achas que é difícil? Vai ser muito mais do que isso!”. Por outro lado, teria uma mensagem muito positiva para lhe dar: a de que isto é tudo sobre pessoas. Em 2001 éramos todos engenheiros informáticos e profundamente apaixonados por aquilo que a tecnologia permitia fazer e a Tekever é tudo sobre é que a tecnologia pode melhorar a vida das pessoas. Mas no fundo, criar uma empresa, desenvolver uma organização, os desafios que temos, são principalmente sobre pessoas, equipas, cultura e depois disso, vem tudo o resto, nomeadamente a tecnologia.
Através da tecnologia, descobrir as pessoas?
De alguma forma, diria que sim.
No início, os drones estavam longe do vosso radar.
Sem dúvida. Em 2001, os drones estavam muito longe do nosso horizonte. Só começámos a investir na área de sistemas autónomos e na área de espaço, de forma mais intensa, a partir de 2008 e 2009, quando começámos a perceber que esta era uma área em que, empresas como a nossa, com uma matriz muito ligada à área de software distribuído e Inteligência Artificial, poderiam ter um papel importante a dizer neste mercado porque é muito dominado pelas tecnologias inerentes ligadas ao software e à IA. E portanto, em 2009 iniciámos um ciclo de desenvolvimento de produto, de tecnologia, de grande investimento que nos levou ao mercado em 2016. O que percebemos na altura é que o sistema em si, o drone, é um meio para atingir o fim. O que montámos foi um modelo de negócio e toda a empresa em função da oferta de um serviço que tira partido da existência de tecnologia mas que vai ao encontro da necessidade operacional do cliente. No fundo, o que fornecemos são dados, informação, insights (diferentes níveis de processamento) que ajudam o cliente a cumprir bem a sua missão que, no caso da vigilância marítima, é manter o mar seguro, salvamento, proteção no mar, proteção da pesca ilegal, um grande conjunto de missões. Hoje fazemos isso em muitas outras áreas.
E é o Reino Unido que vos empurra, digamos assim, para a guerra.
Éramos uma empresa que não estava no mercado de Defesa, já que o nosso mercado principal era o da Segurança, a parte civil. De facto, achávamos que o tipo de abordagem que tínhamos a este tipo de tecnologia e produtos, era o que fazia sentido, e que o mercado da Defesa estava muito parado no tempo do ponto de vista processos e até da adoção de tecnologia. De facto, foi a consciência de quem conhece profundamente esses meios, neste caso do Ministério de Defesa britânico que, conhecendo a empresa e já com uma escala significativa no mercado civil, perceberam que o tipo de produtos e o tipo de empresa que éramos, podia ser muito útil no mercado da Defesa e em particular na guerra da Ucrânia. Porque este é um conflito em que existe um jogo (entre aspas) do gato e do rato constante na evolução tecnológica. Nesse contexto, eram necessárias empresas que tivessem esse ADN. Passados alguns meses, os produtos passaram a estar enquadrados com essa realidade porque os fizemos evoluir a uma velocidade muito grande, ao contrário do que normalmente acontece na área da Defesa.
Sendo tudo isto sobre pessoas e tendo referido até algum envolvimento emocional, o que vos tem trazido esta autêntica missão na Ucrânia?
Existe de facto um envolvimento emocional muito grande. Temos muitos colegas da Tekever que estão na Ucrânia mas além disso temos relações muito próximas com pessoas que estão na frente de batalha, que trabalham connosco e com as nossas equipas diariamente. Há uma relação muito próxima. Acho que não nos conseguiríamos envolver da forma que nos envolvemos se não houvesse uma compreensão total pela causa daquele povo que está a ser agredido, invadido… não há meias palavras sobre isto e não temos dúvidas nenhumas de que lado estamos, algo que não acontece com outros conflitos nos quais decidimos que não nos iriamos envolver. É claro para nós onde está o bem e o mal.
Como é que veem a possibilidade de uma pausa nas hostilidades na guerra da Ucrânia?
Queremos muito que haja paz o mais depressa possível, morrem pessoas todos os dias… ao longo destes anos de envolvimento, aconteceu várias vezes que pessoas que trabalhavam connosco deixarem de aparecer de um dia para o outro, ou porque ficaram feridos ou porque morreram. E isso é profundamente doloroso. Queremos também que os países europeus consigam criar condições para que este flagelo não aconteça na Europa e que façam tudo o que está ao seu alcance.
Como se tem visto na Ucrânia, equipamentos de baixo investimento já são altamente destrutivos. Esta é uma mudança de paradigma?
Este tipo de tecnologias trouxe uma grande assimetria no campo de batalha. Mudou completamente as regras do jogo: temos carros de combate que chegam a custar muitos milhões de euros que são destruídos por drones que custam milhares de euros. Portanto, são fatores de custo gigantes, seja no ar ou no mar. Há aqui uma assimetria que é proporcionada pelo uso dessa tecnologia. E isto é algo que não vai voltar atrás e vai seguramente evoluir face ao que vemos atualmente na Ucrânia. Isto é potencial da tecnologia e da computação e de tudo aquilo que isso permite, nomeadamente a Inteligência Artificial colocada ao serviço da Defesa.
Sendo esta uma área sensível, como é que gerem a captação de investimento?
Diria que nos últimos anos, isso tem vindo a mudar bastante. As perspectivas dos fundos de investimento, e dos investidores de uma forma geral, mudaram e há agora um interesse em investir nestas áreas de Defesa e Segurança, que eram áreas mais fechadas aos investidores mais genéricos. A Tekever não é uma empresa de Defesa, é uma empresa que está na Defesa e isso é completamente diferente de empresas que se dedicam ao fabrico de armas, por exemplo. E somos uma empresa rentável: geramos bastantes resultados e reinvestimos no nosso desenvolvimento. Não captamos assim tanto dinheiro, só o investimento necessário e felizmente temos a bordo os investidores que quisemos trazer, organizações fabulosas como a Baillie Gifford, a Ventura Capital, a NATO Innovation Fund, etc, que trazem valor para além do financeiro para dentro da empresa e alguns deles conhecem perfeitamente este mercado. O NATO Innovation Fund conhece o mercado e decidiu apostar na Tekever como a principal empresa neste setor do ponto de vista da NATO.
Na Defesa, e citando-o, quão difícil é ser local em qualquer parte do mundo?
É uma ótima pergunta. É extremamente difícil mas também extremamente necessário. A Europa não é um só mercado, são vários, e cada um deles acarreta questões perfeitamente legítimas de soberania dos vários países. Fazemos uma parceria profunda com um país e nesse sentido tem que existir confiança e é nesse sentido que digo que é preciso ser local em cada país, sendo que somos a mesma empresa que nasce em Portugal e tem aqui a sua sede mas hoje em dia temos equipas espalhadas por outros países e vamos aumentar essa presença através de empresas detidas por nós para dar garantias a cada um dos nossos clientes.
O sector da Defesa é inovador e assimila com facilidade a adoção de novas tecnologias?
É um sector profundamente tradicional nas últimas décadas. Se recuarmos ao tempo da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, encontramos um sector profundamente inovador e para isso basta ver como algumas das maiores empresas do mundo estiveram profundamente envolvidas. Nesse período, é inacreditável a velocidade a que se desenvolveu tecnologia. Depois, e felizmente para nós, para os nossos filhos e pais, tivemos paz. Essa paz exigiu uma coisa diferente deste sector: redução, consolidação, abrandamento no desenvolvimento de tecnologia porque havia menos orçamento, e permitiu-nos investir naquilo que todos beneficiamos, como a cultura, sociedade, educação, saúde, etc.
Como é que se liga o chip do desenvolvimento novamente?
Infelizmente, o mundo está mais perigoso e há muitas tensões geopolíticas a cada dia e mudanças tectónicas. De facto, precisamos de voltar a investir em Defesa, em Segurança, em resiliência e isso é muito difícil de fazer porque vivemos sempre em paz. Não gosto que estejamos aqui, não queria nada que estivéssemos aqui mas é aqui que estamos e temos que enfrentar esta realidade.
Falou um pouco da dicotomia entre a autonomia e a compliance. Na Tekever, essa é uma batalha diária?
Somos uma empresa profundamente ágil mas por outro lado temos que garantir que tudo aquilo que desenvolvemos é compliant com as regras às quais os nossos clientes e operadores estão sujeitos. E isso varia de país para país. Na Ucrânia isso é muito menos relevante mas se viermos para um país da NATO e em período de paz, temos que cumprir e é muito relevante. Nesse aspeto, temos um conjunto de requisitos adicionais o que, por definição, acaba por atrasar o processo, a não ser que consigamos embeber na compliance no processo de desenvolvimento, necessário para a regulamentação. É extremamente difícil fazer isto e ao mesmo tempo escalar. Ainda há um outro vetor que é o de ter de cumprir a soberania nos vários países em que operamos. No fim, temos que ter agilidade, compliance, escala, que é cada vez maior e a necessidade de ter que lidar com o universo transnacional.
Que conselhos daria às empresas portuguesas que querem entrar neste mercado da Defesa? E o que essas organizações nacionais podem aportar a este sector como mais-valia?
As empresas portuguesas têm um conjunto de fatores que as beneficiam e a mais importante de todas é que temos uma base de talento incrível em Portugal. Temos excelentes escolas, excelentes universidades que produzem excelentes profissionais. Essa é a base e esta é uma indústria de conhecimento. Por outro lado, só é possível estar neste mercado pensando a muito longo prazo: tudo é mais complexo, demora mais tempo, porque o impacto de falhar não é só dinheiro… é a vida das pessoas. Um erro de um sistema nosso pode levar à morte dos operadores, falharmos a proteção de uma força e de uma região. E portanto, há um impacto muito grande neste sector que exige um pensamento de longo prazo, responsabilidade e um conhecimento profundo do problema. Só talento não basta, é preciso conhecer bem os problemas e trabalhar de perto com quem conhece esses problemas que são as forças de segurança e de Defesa. Por último, este é um mercado menos “price sensitive” mas em que o cliente precisa da melhor tecnologia, do melhor produto, do mais adequado mesmo que seja um pouco mais caro. Quem entrar neste sector estará logo em concorrência com os melhores do mundo e não existe nenhum factor de proteção geográfica muito relevante, pelo menos a partir de uma determinada escala. Partam do talento para perceber que problema vão resolver (e isso é muito difícil), criar soluções que façam a diferença, pensar numa escala internacional e a longo prazo.

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