Ana Balcão Reis, Professora Catedrática e Subdiretora dos Estudos Pré-experiênce da Nova School of Business and Economics

Que efeitos têm férias de verão com a duração de três meses?

Ana Balcão Reis, Professora Catedrática e Subdiretora dos Estudos Pré-experiênce da Nova School of Business and Economics, dá-nos a sua perspetiva sobre as férias grandes e o que delas resulta no agravamento das desigualdades, nos rendimentos dos atuais alunos e na produtividade da força de trabalho.

O efeito directo de férias de Verão muito longas como as que existem em Portugal é a perda de aprendizagens que vai acontecendo ao longo das férias, este feito é particularmente forte nas crianças que ainda estão a aprender a escrever.

O efeito das férias na perda das aprendizagens obtidas ao longo do ano lectivo é mais forte nos primeiros anos de escolaridade, o que justifica que haja um esforço para que as férias de Verão do 1º ciclo de escolaridade em Portugal sejam mais curtas do que são hoje e mais curtas que as dos restantes níveis de escolaridade. Acresce que vários estudos mostram que estas perdas, que acontecem durante férias mais longas, acontecem de forma mais acentuada nos alunos com maiores dificuldades de aprendizagem e nos alunos de meios sócio-económicos mais desfavorecidos.

Sendo Portugal um país em que os resultados médios dos alunos melhoraram de forma notável nos testes internacionais como o PISA até 2015, tendo estacionado ou caído depois disso, mas em que o nível de desigualdade nos resultados dos alunos não diminuiu e é elevado, a perda de aprendizagens durante férias longas de alunos de meios desfavorecidos torna-se ainda mais grave e é um facto que contribui para manter (ou agravar) estas desigualdades.

Continua a haver em Portugal bolsas de pobreza educacional que persistem ao fim de todos estes anos. As férias longas, não sendo obviamente a única causa, não ajudam a resolver o problema.

Uma das razões apontadas para que a perda de aprendizagens seja mais grave nos alunos de meios desfavorecidos prende-se com as atividades a que têm acesso durante as férias os alunos de diferentes meios sócio-económicos. Assim, seria importante oferecer a crianças de meios menos favorecidos atividades durante as férias que combatam esta perda de aprendizagens. Isto não contraria a necessidade de haver tempo para brincar, para atividade física, artística e de lazer em geral, mas quer dizer que estas atividades devem ser combinadas com momentos, que podem ser curtos, de leitura e de escrita e com atividades que ajudem a manter o cálculo mental e as aprendizagens da matemática.

Já há muitos municípios, escolas públicas e outras entidades a oferecer atividades de férias, é importante garantir que contemplam estas componentes e, ainda mais importante, garantir que as ciranças que mais necessitam beneficiam destas oportunidades.

Por outro lado, e isso acontece em muitos países, ajuda a reduzir a perda de aprendizagens, manter os dias totais de férias mas espalhá-los ao longo do ano em vez de para tanto tempo seguido durante o Verão. Uma possibilidade que poderia ser interessante seria encurtar as férias de Verão e fazer uma semana de férias noutros períodos que acontecessem de forma desfazda em diferentes regiões do país. Isto é feito, por exemplo, em França, e pode ajudar a que nesses períodos seja mais barato fazer férias do que no Verão e também pode permitir um impacto menor na economia da necessidade dos pais acompanharem as crianças nesses períodos.

Em resumo, férias tão longas têm um efeito negativo nas aprendizagens e agravam desigualdades nos resultados dos alunos. Isto tem consequências a longo prazo nos rendimentos dos atuais alunos e na produtividade da força de trabalho.

Seria bom encurtar as férias de Verão principalmente nos primeiros anos de escolaridade.

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