Jotas em Carcavelos para formação em políticas públicas

Foi uma iniciativa inédita da Nova SBE Public Policy Institute. Quase duas dezenas de jovens de diferentes juventudes partidárias aceitaram o convite do instituto para participar no primeiro programa “Liderança em Políticas Públicas”, no campus de Carcavelos, no início do verão.

Jotas em Carcavelos para formação em políticas públicas
Formação 'Liderança em Políticas Públicas', promovida pelo Nova SBE Public Policy Institute, juntou 17 participantes de várias juventudes partidárias

É frequente ouvir-se que as juventudes partidárias são escolas de formação para quem quer fazer carreira na política. São disso exemplo os quatro últimos ocupantes do Palácio de São Bento, que passaram pela Juventude Social Democrática (JSD) e pela Juventude Socialista (JS).

Fazem o percurso das jotas, crescem lado a lado – ou frente a frente –, trabalham nos partidos, e muitos chegam à Assembleia da República ou aos gabinetes do Governo. Se nos partidos as universidades de verão e iniciativas para a doutrina e cativação dos mais novos é a finalidade, nas escolas e universidades o objetivo é outro. A Nova SBE avançou com um programa inédito e recebeu recentemente o grupo estreante de jovens políticos para o programa Liderança em Políticas Públicas.

Camila Botão, secretária-geral da Distrital de Lisboa da JSD, esteve entre os 17 participantes da iniciativa do Nova SBE Public Policy Institute (NPPI). “Para quem quer fazer política ativa, estes momentos são muito importantes”. Mas, também, para aqueles que querem “trabalhar com políticos e auxiliar na decisão política é igualmente importante”, defendeu em conversa com o Jornal Económico (JE), após o conjunto de debates finais que encerrou a formação.

Do lado da JS, que contou com quatro participantes, esteve Samuel Xavier, chefe de gabinete do Presidente da Câmara Municipal da Sertã, que assinalou a importância de iniciativas como esta na promoção de um debate entre pessoas com “ideias radicalmente diferentes do mundo”. Iniciou funções na autarquia não há muito tempo e explicou ao JE a importância da formação para “conseguir consolidar as políticas em implementação na autarquia com bases reais, com base em evidências, para não se cair no erro de lugares-comuns”. “Portanto, para termos políticas com mais eficácia, com mais adaptação à realidade. É uma dificuldade muito grande de quem implementa políticas públicas adaptá-las à realidade”, sublinhou.

Pedro Martins, Professor Catedrático da Nova School of Business and Economics e diretor do Economics for Policy Knowledge Center, foi um dos formadores do curso de liderança em Políticas Públicas. Conta ao JE que na base do desenvolvimento do programa esteve a “ideia do evidence based policy, ou seja, políticas baseadas em conhecimento, em dados, em rigor”.

Foram convidados professores da Faculdade de Economia da Universidade Nova SBE, como Pedro Pita Barros, Ana Balcão Reis, Susana Peralta e Pedro Brinca, entre vários “especialistas em determinadas dimensões das políticas públicas”, do ambiente à imigração, educação, trabalho, gestão, educação e saúde, respondeu o docente ao ser questionado sobre como se garante que a dimensão ideológica, frequentemente identificável nas universidades, é esbatida num tema em parte orientado por ela.

“Procurámos combater isso numa lógica de apresentar estudos o mais rigorosos possível, discutir alternativas de uma forma transparente e procurar, talvez, promover alguma convergência entre os diferentes partidos políticos, na dimensão das ferramentas para conhecer e comparar políticas públicas”, continuou.

A organização entrou em contacto com as juventudes partidárias de todos os partidos com representação parlamentar com um convite para participação na iniciativa, que teve José Tavares, professor de Economia na Universidade Nova de Lisboa, como coordenador. Com exceção do Chega, do CDS e do Juntos pelo Povo (JPP), todos os grupos partidários estiveram presentes na iniciativa inédita da Juntos pelo Povo (JPP). A maioria das juventudes selecionou três participantes, num total de quatro mulheres e 12 homens.

A ideia é que a summer school se torne num programa oferecido com mais frequência. “Às vezes, nos debates no Parlamento, vemos perspetivas talvez um pouco cristalizadas, um pouco ideológicas, com uma utilização de lugares comuns, de ferramentas retóricas um pouco desprovidas de conteúdo mais direto… E aqui, nestas interações, não vi nada disso. Pelo contrário, vi muita abertura, disponibilidade para consensos, para convergências, capacidade de mudar, portanto capacidade de ajustar as perspetivas em função dos dados, em função dos estudos”, recorda Pedro Martins.

“Deve a energia nuclear ser parte integrante da estratégia europeia para a neutralidade carbónica?” Foi a esta e a outras questões que, na sessão de encerramento, os participantes responderam, organizados em grupos de três e ao longo de três rondas, numa tentativa de pôr em prática as ferramentas ali adquiridas, num exercício em que assumiam, naquele contexto, a posição contrária àquela que defendem na realidade.

Camila Botão, que também faz parte da Comissão Política do PSD, destaca o equilíbrio conseguido pelo programa em “momentos de aprendizagem de art skill” durante aqueles que foram “quatro dias intensos, do ponto de vista da carga horária, mas também leves, de um programa muito bem construído”.

Ainda sobre a formação, Samuel Xavier defende a importância deste formato “não só pela parte técnica, mas pelo convívio e debate” entre membros de vários quadrantes políticos. “O nosso sistema está muito polarizado, muito inflamado, e acho que foi muito gratificante também ver a diversidade de opiniões que aqui existem e a facilidade de convivência”, afirmou. “Temos ideias radicalmente diferentes do mundo, e é importante que iniciativas como esta consigam dar alguma tranquilidade ao nosso debate”, acrescentou.

Lilian Lehmann, diretora executiva do NPPI, enquadra a iniciativa nos objetivos do instituto de “contribuir para um diálogo mais informado, mais baseado em evidências, especialmente hoje em dia num mundo mais polarizado”.

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