Para o caso de não se terem apercebido, Portugal é um alfobre de milionários, de gente rica e de potenciais endinheirados, segundo revela o relatório ‘Global Wealth Report 2024’ da UBS – que mostram que Portugal somava 171.797 fortunas significativas até ao final do ano passado, um aumento superior a cinco mil em relação ao ano anterior, mais 3%. O simpático banco suíço diz ainda que o número de milionários portugueses pode chegar aos 189.235 em 2028.
O desafogo nacional em termos de riqueza só podia ativar a inveja dos nossos parceiros comunitários, que ainda não se habituaram à esplêndida economia que se consolidou no extremo oeste do bloco – onde cidadãos exemplarmente munidos de um património superior a um milhão de dólares convivem com outras realidades que em milénios anteriores eram mais comuns.
É neste quadro que uma reportagem do “El Economista”, jornal publicado no país dos nossos pretéritos e mais distintos inimigos, Espanha, afirma com despudor que “os espanhóis ainda são mais ricos (têm um património líquido mais elevado) do que os portugueses é uma realidade facilmente observável”. Mas já por ali está instalada a inveja: “no entanto, nos últimos 15 anos houve uma aproximação importante, que em termos percentuais é ainda mais esclarecedora. Portugal está a aproximar-se de Espanha em vários indicadores-chave da economia”.
A evidência surge onde se esperava: o rendimento per capita. “A Espanha ainda está à frente, mas a diferença está a diminuir gradualmente. O rendimento per capita de Portugal representava 80% do rendimento per capita de Espanha em 2008. Hoje, o rendimento dos portugueses já atinge 92,38% do rendimento per capita dos espanhóis, segundo dados do Banco Mundial”.
Recorrendo ao relatório suíço, os espanhóis sucumbem aos números: “desde 2008, a riqueza por adulto aumentou mais de 80% em Portugal, enquanto em Espanha aumentou apenas pouco mais de 12%. Em contrapartida, a Grécia registou uma quebra de 11%” – um apêndice ao documento da USB dedicado aos três países – que são com certeza considerados pelas autoridades suíças como a reserva empobrecida da Europa.
Os números permitem que o “El Economista” afirme que, “apesar de tudo, os espanhóis ainda estão à frente em termos de património líquido absoluto. A riqueza líquida média dos espanhóis situou-se em 225.674 euros por adulto em 2023, contra 163.272 euros dos portugueses e 109.838 dos gregos. A mediana (mais confiável e representativa) foi significativamente menor, o que destaca a significativa desigualdade de riqueza. Em Espanha a riqueza mediana foi de 111.270 dólares, em Portugal 74.140 dólares e na Grécia 55.695 dólares. A mediana costuma ser um indicador mais confiável, pois é menos distorcida pelos extremos (os mais ricos e os mais pobres)”.
Embora o relatório não desagrega quais foram os ativos ou as razões específicas (redução da dívida, por exemplo) que causaram esse aumento de riqueza por cidadão, pode-se concluir o que aconteceu. “Tudo aponta para o facto de a habitação ser a grande responsável pela melhor evolução da riqueza em Portugal face a Espanha. Para além do melhor desempenho da economia (gera maiores rendimentos salariais e lucros), o preço do ‘tijolo’ tem impulsionado a riqueza dos portugueses. O próprio relatório destaca que, no caso destes países do sul da Europa, a propriedade da casa própria tem um peso elevado na riqueza dos indivíduos”.
Deve ser por aí: “os ativos financeiros representam aproximadamente um terço da riqueza bruta por adulto nos três mercados, abaixo da média europeia, que é de 54,6%. O rácio da dívida é igualmente baixo nos três países, rondando os 10%, em comparação com a média europeia de 17%”, referem os especialistas do banco suíço. Ou seja, cerca de dois terços da riqueza é composta por ativos reais”: o imobiliário, com certeza adquirido nos saudosos tempos das taxas negativas e que agora passou a ser, na melhor das hipóteses, um pesado fardo financeiro mensal – na pior das hipóteses, esse fardo já seguiu para engordar os ativos dos bancos face à incapacidade de sustentar os serviços da dívida.
Os suíços destacam ainda que a desigualdade de riqueza está próxima da média europeia nos três mercados, embora desde 2008 tenha aumentado mais de 17% na Grécia e quase 20% em Espanha, em comparação com apenas 2% em Portugal. O relatório global observa que “Itália e Espanha são dois mercados onde o crescimento da riqueza média por adulto desde 2008 mascara uma queda na riqueza média. Esses movimentos implicam que a riqueza ficou mais concentrada no topo da distribuição”, dizem os economistas do UBS. Conclusão: somos ricos, somos solidários e temos um património cada vez mais sólido – ou então há aqui qualquer coisa que se nos escapa.