Filipe Morais, Professor de Governance & Reputation, Henley Business School, Reino Unido, e Partner na AMROP

Misericórdia!

A Santa Casa de Lisboa, como aliás muitas outras espalhadas pelo país, tem um modelo de governo altamente desadequado.

Os problemas tornados públicos recentemente na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mais concretamente na Santa Casa Global (que delírio!) são graves, mas esperados. A Santa Casa de Lisboa, como aliás muitas outras espalhadas pelo país, tem um modelo de governo altamente desadequado e muitas características que fazem destas organizações especialmente vulneráveis a todo o tipo de má gestão e de quebras morais e éticas.

Em primeiro lugar são organizações com propósitos nobres e, portanto, beneficiam da benevolência dos seus stakeholders como os governos e a tutela, e de alguma forma de todos nós. É como se o propósito que lhes foi confiado fosse garantia da boa conduta e da competência dos seus líderes.

Segundo, estas organizações vivem num mundo em que ganhar dinheiro e fácil. Ora tem o privilégio do exclusivo dos jogos populares ora beneficiam de subsídios do estado e de outras entidades. É fácil por isso ser complacente e perder de vista de que esses recursos devem ser utilizados com parcimónia e o mais possível direccionados para actividades relacionadas com o seu propósito. Todos nos lembramos (ou deveríamos) da reportagem da TVI sobre o Hospital Conde de Ferreira no Porto, que devia a todos envergonhar.

Ao mesmo passo que o Centro Corporativo da Santa Casa do Porto está impecavelmente reabilitado. Nestas instituições, não se sabe qual a percentagem da massa salarial gasta com cargos de gestão não relacionados com a prestação de serviços de saúde, sociais ou educacionais. Desconfio que teríamos surpresas desagradáveis por esse país fora.

Não sabemos destas coisas porque sendo o governance desadequado, o reporting e a transparência, são péssimos. Mesmo nas instituições de mais recursos como a Santa Casa de Lisboa e do Porto ou a Cruz Vermelha Portuguesa o relatório anual de gestão e contas é paupérrimo e não explica nada. Mede impacto social ao quilo, não demonstra value for money, dever de qualquer instituição que beneficia de fundos públicos.

O valor social mede-se em número de beneficiários por cada serviço / área. Isto está longe da pratica do que se faz internacionalmente. Por outras palavras, não existe governo, rigor e transparência. As instituições deste sector, sobretudo as de maior dimensão, precisam de um conjunto de regras de governance e de reporting claras, que permitam não apenas fiscalizar melhor, mas também apoiar a equipa de gestão no desenvolvimento da organização. Falta coragem, como sempre.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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