A conselheira especial do secretário-geral da ONU para os Assuntos Africanos realçou hoje a importância crescente da União Africana para gerir situações de instabilidade em África, e, questionada sobre os recentes golpes de Estado, pediu que não se generalize.
“Há claramente um aumento deste ‘modus operandi’ no continente. Mas temos de tomar muito cuidado, apelar ao bom senso, para não generalizar”, disse à agência Lusa Cristina Duarte, subsecretária-geral das Nações Unidas (ONU) e conselheira especial do secretário-geral, António Guterres, sem querer comentar diretamente o mais recente golpe de Estado, esta madrugada, no Gabão.
Cristina Duarte enfatizou que “é preciso entender o que é que está a acontecer e não fazer uma avaliação com base em estereótipos” e seguramente não “com base em estereótipos importados de regiões que não a África”.
Neste contexto, salientou o papel da União Africana, afirmando que esta organização “está a emergir de forma muito consistente, em termos de acompanhar e ajudar as partes a gerir situações de conflito”.
“O que tem vindo a acontecer de maneira muito mais persistente, eficiente, é que a União Africana nos últimos anos – e graças a um processo de reformas que está sendo implementado -, tem sido muito mais proativa na gestão de situações de instabilidade em África”, elogiou a conselheira especial de Guterres para os Assuntos Africanos.
Salvaguardando que não pode falar em nome de outras organizações, declarou, contudo, que “tendo em conta este percurso bastante positivo da União Africana, em termos de aumento da sua proatividade no acompanhamento e apoio na gestão das situações de conflito, de estabilidade”, acredita que esta esteja já a “analisar e a discutir, o que está a suceder, por exemplo, no Gabão”.
Um grupo de militares do Gabão anunciou hoje na televisão o cancelamento das eleições presidenciais que reelegeram, no sábado, Ali Bongo Ondimba e a dissolução de todas as instituições democráticas.
Sobre o papel que a ONU pode desempenhar, Cristina Duarte lembrou que a organização só intervém nestas situações se for convidada pelas partes a desempenhar “o papel de mediador, o papel de fazedor, de construtor da paz” e que a decisão depois disso cabe aos Estados-membros.
A subsecretária-geral da ONU insistiu, na entrevista à Lusa, a partir de Nova Iorque, que é preciso ter em conta na análise destas situações em países africanos “as várias geografias” que se sobrepuseram e que causam “permanente” e por vezes “silenciosa instabilidade”, e repetiu o apelo para não generalizar e “não tratar África como um país”.
Antes do Gabão tinha sido o Níger, no final de julho, o sofrer um golpe de Estado, e antes disso, desde 2020 também o Mali, a Guiné-Conacri, o Burkina Faso, o Sudão e o Chade.