A operação da Polícia Federal que apura a inclusão de dados falsos de vacinação no sistema do Ministério da Saúde abre uma nova frente nas investigações que têm o ex-presidente Jair Bolsonaro como alvo. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal “Globo”, caso comprovada a fraude, Bolsonaro pode incorrer nos crimes de falsidade ideológica, inserção de dados falsos em sistema de informações e infração sanitária.
Por outro lado, dizem ainda as fontes citadas, caso Bolsonaro seja investigado e condenado, poderá tornar-se inelegível – o que seria um rude golpe para as aspirações políticas do ex-presidente, que nas últimas semanas (desde que voltou dos Estados Unidos) tem dado mostras de querer isolar-se como o epicentro do combate ao atual presidente Inácio Lula da Silva. As próximas presidenciais estavam, neste quadro, indiscutivelmente na mira de Bolsonaro.
Segundo o “Globo”, uma possível inelegibilidade depende principalmente da instância onde o caso venha a ser julgado. A chamada Lei da Ficha Limpa prevê a inelegibilidade apenas após condenação por um órgão colegiado. Nesse quadro, se o futuro e eventual processo tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF), essa condição está cumprida, mas se Bolsonaro for julgado em primeira instância, o ex-presidente só se tornaria inelegível após uma eventual condenação em segunda instância.
Já depois das buscas e da apreensão do seu telemóvel, o ex-presidente negou ter adulterado o seu cartão de vacinação: “Não existe adulteração da minha parte. Não tomei a vacina. Ponto final”, afirmou, citado pela imprensa brasileira. A suspeita tem a ver com o facto de Bolsonaro e a sua mulher terem adulterado os boletins de vacinação para poderem passar a fronteira com os Estados Unidos, país onde estiveram várias semanas depois de o ex-presidente ter perdido as eleições.
Pelas redes sociais, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou que não sabe o motivo da operação e que os seus advogados não tiveram acesso aos autos. Revelou ainda que o seu telemóvel não foi apreendido e reafirmou ser a única a ter tomado a vacina na família.
Até esta quarta-feira, tudo parecia estar a correr bem a Bolsonaro: o ex-presidente brasileiro foi recebido por uma multidão no aeroporto da cidade de Ribeirão Preto, naquele que, há três dias, foi o seu primeiro evento público desde que regressou ao Brasil após três meses nos Estados Unidos.
Centenas de apoiantes do líder de extrema-direita aplaudiram-no de pé no aeroporto da cidade do interior do estado de São Paulo e um grupo igualmente numeroso acompanhou-o, numa caravana de carros e motas, num périplo que Bolsonaro fez na carroçaria de uma carrinha entre o terminal do aeroporto e uma quinta próxima onde se alojou, referia a agência Lusa na altura.
Num evento com clima de campanha eleitoral, os apoiantes do ex-presidente, que se aglomeraram no aeroporto várias horas antes da chegada do líder do Partido Liberal (PL), gritaram a palavra de ordem do costume: “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”. Até então, e desde 30 de março, quando regressou, o líder da extrema-direita apenas participou num evento na sede do Partido Liberal, onde foi proclamado líder da oposição a Lula da Silva, e em dois interrogatórios a que foi sujeito pela Polícia Federal no âmbito dos processos em que é arguido: a alegada tentativa de se apropriar de joias que recebeu na Arábia Saudita e o alegado incentivo à invasão, a 8 de janeiro, das sedes da Presidência da República, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.