Veneza afunda. A civilização também?

Se o estreito de Ormuz concentra todas as atenções, talvez importe, também, estar atento à Bienal de Arte de Veneza. A maior montra mundial da arte contemporânea abre ao público a 9 de maio. Entre manifestações, demissões e ondas sísmicas da geopolítica.

Veneza afunda. A civilização também?
Pavilhão central_Bienal Veneza

A arte não resolve os problemas do mundo. Apenas nos devolve o reflexo do estado das coisas. É um espelho. E, muitas vezes, reflete o que não queremos ver. ‘Noblesse oblige’. É assim em Veneza, a cidade que afunda, e que por estes dias, e até novembro, se transforma no epicentro da arte contemporânea. Para o melhor e para o pior.

Na primeira gaveta cabem todos os artistas ali presentes, todas as suas leituras do mundo. Coabitam sob o repto da curadora da 61ª Bienal de Arte de Veneza. “In Minor Keys”. Em sussurro, à escuta dos ‘ínfimos sinais’, para se poder olhar o mundo de uma nova forma.

Na segunda gaveta habitam as convulsões. Com a abertura ao público marcada para 9 de maio, a Bienal soma polémica atrás de polémica. O júri internacional demitiu-se em bloco. Logo, o principal galardão do evento, o Leão de Ouro, não será entregue este ano. Até ao momento, duas centenas de artistas, curadores e colaboradores da Bienal assinaram uma carta pedindo a exclusão dos pavilhões de Israel e da Rússia. A organização da Bienal insiste que não tem o direito de barrar a participação de nenhum país. A União Europeia ameaçou suspender o apoio previsto, de 2 milhões de euros, para os próximos 3 anos, pelo facto de a organização ter condescendido na reabertura do pavilhão da Rússia. O Irão anunciou esta semana que não estará presente na Bienal. Foi convocada uma greve de 24 horas para o dia 8 de maio.

Todos com a sua razão? Sim. E todos sem saber o que fazer para encontrar um chão comum. Desconfortável, forçosamente, mas capaz de acolher todos e as suas diferenças. E que permita à arte ser o sensor que sente, escuta – e muitas vezes antecipa – esses ‘ínfimos sinais’. Para não afundarmos, mas construirmos chão firme.

Relacionado

Veneza já tem mais camas para turistas do que habitantes. O turismo de massas está a transformar as cidades europeias

Veneza já tem mais camas para turistas do que habitantes. O turismo de massas está a transformar as cidades europeias

Teresa Cotrim29 Ago
Veneza tornou-se o símbolo de uma contradição que se espalha pela Europa: cidades cada vez mais procuradas por turistas, mas onde é mais difícil viver. O centro histórico perdeu cerca de 70% dos habitantes em sete décadas e a oferta de alojamento turístico já ultrapassa a população residente. Lisboa não está nesse ponto, mas enfrenta alguns dos mesmos problemas: habitação mais cara, expansão do alojamento de curta duração e pressão crescente sobre os bairros históricos.
Bienal de Arte de Veneza: E se adiássemos o fim do mundo?

Bienal de Arte de Veneza: E se adiássemos o fim do mundo?

Ana Pina21 Ago
Até 22 de novembro, a mais importante Bienal de Arte do mundo continua a espelhar o que nos incomoda, fascina, faz estremecer. De dúvidas, de emoção ou de puro deleite estético. Veneza viveu dias agitados na abertura, equilibrou-se, qual funâmbulo na corda da incerteza, e interpela-nos. É esse o papel da arte.