O ano de 2021 foi muito agitado para o real brasileiro. A moeda perdeu 6,7% face ao dólar, mas o que mais se destacou foi a volatilidade. Entre mínimo e máximo do ano, o real oscilou quase 17%. Parte destas oscilações deveu-se à política monetária, com a Selic a iniciar o ano a 2% e a fechar nos 9,25%.
Perante um cenário de inflação alta e de uma economia em dificuldades quando o resto do mundo se preparava para uma aceleração pós-confinamentos, o dólar/real chegou a R$5,75 e ameaçava continuar em tendência de alta, i.e., o real a enfraquecer. O facto de 2022 ser um ano de eleições apenas aumentava os receios quanto a mais quedas do real.
Se nessa altura me garantissem que, em 31 de março, as previsões para o crescimento para 2022 seriam de 0,5%, a inflação estaria acima de 10% e o principal favorito para vencer as presidenciais de outubro seria Lula da Silva – o mesmo que o mercado já receou várias vezes – a minha conclusão seria simples: o real iria sofrer mais.
Até agora aconteceu precisamente o contrário. O real é a moeda do G20 com melhor desempenho face ao dólar em 2022, tendo já valorizado mais de 15% este ano e ainda mais em relação ao euro. Se olharmos para as moedas que mais ganharam até agora em 2022, temos as do Brasil, Austrália, Canadá, África do Sul, Chile e Colômbia. A economia destes países não está pujante e até está a desacelerar, mas tem em comum taxas de juro em alta e, sobretudo, serem fortes exportadores de commodities – essa é a principal explicação para a evolução do câmbio.
Contrariamente ao que sucede muitas vezes, o mercado cambial está a dar pouca importância à economia, focando quase exclusivamente nos preços das matérias-primas e nas taxas de juro. É apenas mais um exemplo de como é muito difícil fazer previsão em câmbios, mesmo que se faça uma boa previsão sobre a evolução futura do PIB.