Poucos dias antes da participação no Festival Internacional de Óbidos para apresentar a sua mais recente obra – Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites -, Salman Rushdie foi entrevistado para o DN em Nova Iorque.
O autor que foi obrigado a privar-se do mundo após a publicação do livro Os Versos Satânicos comentou a sua relação com a literatura. “Um livro tem sempre origem na minha relação com o mundo. Penso nos livros como relatórios da consciência do escritor enquanto ele se move através da vida. O escritor está a mudar e o mundo à sua volta também. Em alguns momentos o escritor em mudança encontra-se com o mundo em mudança e isso transforma-se num livro. Apesar de usar ferramentas muito antigas de contos e fábulas, queria escrever algo muito contemporâneo. Uma das soluções foi garantir que estava ancorado num lugar real, na cidade de Nova Iorque”.
O escritor e historiador britânico debruçou-se, ainda, sobre alguns dos eixos principais do debate público, sem deixar de contornar as questões religiosas. “Adorava poder não escrever mais sobre religião, não sou uma pessoa religiosa e acho a religião um pouco chata. Acaba por aparecer porque cá está ela, de novo, sentada no meio da sala, impondo-se. Este fenómeno do regresso da religião como um tema público é muito estranho. Se fores da minha idade, e te lembrares dos anos 60, ninguém falava sobre religião. Discutíamos sobre todos os temas, direitos civis, Vietname, mas ninguém falava de religião. A ideia de que a religião faria este regresso era inimaginável”, disse.
“As coisas têm sido duras. Houve um período económico duro e agora há todo este conflito e violência. Mas as pessoas esquecem-se de como as coisas estão muito melhores. Se comparares o que o mundo era entre 1939 e 1945, estamos muito melhor. A saúde das pessoas é muito melhor, vive-se mais anos. O mundo é muito menos violento do que era há 50 ou 100 anos. Algumas coisas são muito más, mas a ideia de que é pior do que o que os nossos antepassados enfrentaram, por exemplo, contra Hitler, não é verdade. Muitos da minha geração cresceram sem ter de lutar num exército”, continuou o autor.