A intensificação da repressão na Tunísia contra líderes e críticos da oposição – que era esperada face aos acontecimentos dos dois últimos anos naquele país do norte de África – está a fazer surgir o fantasma do regresso da autocracia.
Desde que assumiu o poder em 2021, o presidente Kais Saied tem-se aproximado cada vez mais da autocracia – muito por força do exemplo do seu homólogo egípcio, dizem os analistas. Desde fevereiro, mais de 20 dissidentes, ativistas, jornalistas e figuras da oposição terão sido presos, sem que haja a certeza sobre o seu paradeiro.
Os detidos foram acusados de vários crimes, algumas relacionadas com a segurança, mas ativistas citados pelas agências internacionais disseram que as acusações são muitas vezes forjadas e que Saied está simplesmente a perseguir os seus críticos.
Anas Altikriti, chefe do think tank da Fundação Córdoba, que se concentra nas relações entre o mundo muçulmano e as nações ocidentais, disse num fórum que decorreu em Londres esta quinta-feira que, embora a chamada Primavera Árabe tenha sido um dos “momentos mais transformadores deste século”, o que se está a passar neste momento na Tunísia está “a matar” os últimos resquícios desse movimento. Que, aliás, já acabou em praticamente todos os países que por ela passaram.
Entre os presos estão não só os líderes dos partidos e movimentos de oposição, mas também analistas que se limitam a mostrar opiniões diversas das do presidente. Said Ferjani, um parlamentar, foi preso em fevereiro por dizer que medidas tomadas na frente económica só servem para mascarar a crises em que o país está atolado.
Seifeddine Ferjani, filho do político preso, disse, citado pelas mesmas fontes, que “há sinais profundamente preocupantes da forma como a Tunísia opera, como o uso de esquadrões anti-terror para prender dissidentes liberais, dissidentes socialistas. Acho que a Tunísia é uma bomba-relógio e o perigo está sub-avaliado”.
Em fevereiro, o novo Parlamento resultou da vontade de pouco mais de 11% do eleitorado, com a oposição a boicotar as eleições que ocorreram em dezembro e janeiro. Antes disso, as forças de segurança lançaram uma forte repressão contra a oposição política a Saied, com muitos opositores a permanecerem presos sem acusação formada.
O regime passou também, repentinamente, a perseguir os imigrantes negros indocumentados, acusados pela presidência de serem parte de uma conspiração para promover mudanças demográficas na Tunísia. O presidente tunisino afirmou que “uma multidão de imigrantes irregulares da África Subsaariana” tinha entrado na Tunísia, com “a situação a fazer parte de um plano criminoso concebido para alterar a composição demográfica e transformar a Tunísia em mais um “país africano que já não pertence às nações árabes e islâmicas”.
Como corolário de toda a insegurança e opressão, as tentativas de tunisinos chegarem à Europa têm vindo a crescer, engrossando assim as filas dos que, tentado uma passagem ilegal, muitas vezes se limitam a encontrar a morte.