Trump quer mudar o mapa da América. Já tem um golfo e um lago. Já só falta um oceano

Na guerra comercial com o Canadá, Trump abriu uma nova frente: a geografia. Depois do Golfo da América e agora do Lago América, o Presidente dos EUA admite que o Atlântico ou o Pacífico podem ser os próximos a mudar de nome. Por enquanto, o mundo pode continuar a chamar-lhes pelos nomes de sempre, mas pode chegar o dia em que uma criança pergunte onde fica o Canada e a resposta seja: depende!

Trump quer mudar o mapa da América. Já tem um golfo e um lago. Já só falta um oceano
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Na guerra comercial entre os Estados Unidos e o Canadá já parece haver um vencedor inesperado: o marcador vermelho dos mapas.

Donald Trump assinou esta quinta-feira, 27, uma ordem executiva para que o Lago Ontário passe a ser designado, nos documentos oficiais norte-americanos, como “Lake America”. E, como se a mudança de nome de um dos Grandes Lagos não fosse suficientemente ambiciosa, o Presidente norte-americano deixou no ar a possibilidade de avançar para águas ainda maiores.

“Já temos um Golfo da América e temos um lago. Agora só precisamos de um oceano”, disse Trump no Salão Oval, sugerindo que o próximo alvo poderá ser o Atlântico ou o Pacífico. A frase foi proferida no contexto da assinatura da ordem executiva e, até agora, não existe qualquer decisão formal para mudar o nome de nenhum dos dois oceanos.

Ou seja: o Atlântico continua Atlântico e o Pacífico continua Pacífico. Pelo menos por enquanto.

A ameaça — ou brincadeira, dependendo da interpretação — acrescenta uma dimensão quase cartográfica à crescente guerra comercial entre Washington e Ottawa. O elEconomista resumiu a situação com uma frase que parece saída de uma caricatura política: “na guerra comercial entre os EUA e o Canadá já parece haver um perdedor: o mapamúndi”.

                                            Imagem partilhada por Donald Trump

Do Golfo da América ao Lago América

Trump já tinha inaugurado esta política de baptismo geográfico em janeiro de 2025, quando determinou que o Golfo do México passasse a ser designado “Golfo da América” no âmbito do Governo federal dos EUA.

Agora chegou a vez do Lago Ontário, um dos cinco Grandes Lagos da América do Norte, partilhado pelos Estados Unidos e pelo Canadá.

A ordem executiva assinada por Trump determina que o Departamento do Interior actualize, no prazo de 30 dias, o sistema federal norte-americano de nomes geográficos. A Casa Branca justifica a decisão com o papel dos Estados Unidos na protecção e utilização dos Grandes Lagos e sustenta que a maior parte do volume de água do lago se encontra em território norte-americano.

Mas há um pequeno detalhe diplomático: Washington pode mudar aquilo que os seus organismos oficiais escrevem nos mapas. Não pode obrigar o Canadá a fazer o mesmo.

É precisamente esse o ponto sublinhado pela Reuters. A alteração aplica-se à utilização federal norte-americana e não obriga o Canadá, organismos internacionais ou outras entidades a adoptar o novo nome. O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, e a governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, já deixaram claro que não pretendem abandonar “Lake Ontario”.

Um artigo da LUSA explica pela boca do primeiro ministro a origem do nome “O nome Lago Ontário vem da palavra Wendat Ontari’io, que, apropriadamente, significa ‘o lago é belo, o lago é grande’. O nome tem mais de 400 anos, sendo anterior tanto à Confederação canadiana como à Declaração de Independência dos Estados Unidos”, observou.

“Nós, canadianos, também sabemos que chamar as coisas pelos seus nomes significa chamar-lhe Lago Ontário: ontem, hoje e sempre”, referiu Carney  citado pela LUSA numa mensagem publicada na rede social X poucas horas depois de Trump ter assinado uma ordem executiva para mudar o nome oficialmente utilizado pelo Governo norte-americano.

O Canadá, portanto, continua a ter um Lago Ontário. Os Estados Unidos passam a ter um Lago América. A água, entretanto, permanece exactamente no mesmo sítio.

E agora o oceano?

É aqui que a história ganha uma dimensão quase surrealista.

Se a lógica for levada até ao fim, Trump já tem um Golfo da América, terá em breve um Lago América e considera que falta apenas um oceano para completar a colecção.

A questão é saber qual. O Atlântico seria uma escolha conveniente. Afinal, é o oceano que banha a costa leste dos Estados Unidos e que, durante séculos, serviu de porta de entrada e saída para o comércio americano. O Pacífico também não ficaria mal, sobretudo para uma potência que olha cada vez mais para a Ásia.

Mas há um problema: os oceanos têm a desagradável característica de serem internacionais. Uma ordem executiva norte-americana pode alterar a terminologia utilizada pelo Governo dos Estados Unidos. Não pode reescrever os mapas do planeta inteiro. A própria Reuters salienta que a mudança do Lago Ontário não tem poder para impor o novo nome fora da esfera federal americana.

Assim, poderemos chegar a uma situação curiosa: num documento oficial de Washington, o Atlântico poderá eventualmente receber um novo nome; num mapa canadiano, europeu, brasileiro ou japonês, continuará a ser o Atlântico.

Seria talvez a primeira guerra em que cada país poderia ganhar simplesmente escolhendo o seu próprio mapa.

A geografia como arma comercial

A mudança de nomes acontece num momento particularmente tenso das relações entre Washington e Ottawa.

As negociações comerciais entre os dois países fracassaram e os Estados Unidos avançaram com tarifas de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares de produtos canadianos. O Canadá respondeu com tarifas de valor equivalente sobre produtos norte-americanos.

Trump acusa repetidamente o Canadá de manter práticas comerciais prejudiciais aos Estados Unidos e voltou a defender a ideia de que a produção automóvel destinada ao mercado americano deveria ser realizada integralmente dentro dos EUA.

O problema é que a economia norte-americana não funciona como um conjunto de ilhas económicas independentes. A indústria automóvel dos EUA e do Canadá construiu, ao longo de décadas, cadeias de produção profundamente integradas. Componentes atravessam a fronteira várias vezes antes de um automóvel chegar ao consumidor.

É por isso que uma tarifa pode não ser apenas um imposto sobre o estrangeiro: pode também tornar mais caros os próprios produtos fabricados nos Estados Unidos.

O Canadá não muda o nome

A dimensão simbólica da decisão parece, por isso, ser tão importante como a económica.

Trump insiste que a mudança do nome do lago não constitui uma mensagem para o Canadá. Mas acontece precisamente quando as relações entre os dois países atravessam uma das fases mais difíceis das últimas décadas.

E a reacção canadiana foi imediata.

Para Ottawa, continua a ser Lake Ontario. Para Nova Iorque, também. Para grande parte do mundo, continuará a ser Lake Ontario. Só nos documentos oficiais americanos começará a aparecer o novo nome determinado pela Casa Branca.

É uma disputa peculiar: Washington pode ganhar o direito de escrever “Lake America” no seu próprio mapa, mas não pode fazer desaparecer “Lake Ontario” do mapa dos outros.

O próximo capítulo: Atlantic America?

Por enquanto, o oceano pode respirar descansado. Trump não assinou nenhuma ordem para mudar o nome do Atlântico ou do Pacífico. Apenas sugeriu que poderia fazê-lo.

Mas, depois do Golfo do México e do Lago Ontário, a pergunta deixou de ser completamente absurda: se a geografia americana pode ser rebaptizada por decreto, onde termina a lista?

Um rio? Uma baía? Uma montanha? Talvez um continente — embora aí a burocracia internacional possa tornar-se particularmente incómoda.

O mais curioso é que, no meio de uma guerra comercial que envolve tarifas, cadeias de abastecimento, indústria automóvel e dezenas de milhares de milhões de dólares, a discussão tenha chegado aos mapas.

A economia pode estar a tentar perceber quanto custará a guerra comercial. A diplomacia tenta perceber como a terminar. E os cartógrafos, por sua vez, começam a olhar para os oceanos com alguma apreensão.

Porque, se Trump cumprir a promessa, talvez um dia seja preciso explicar às crianças que o Oceano Atlântico mudou de nome.

E, nesse caso, a velha pergunta “onde fica o Canadá?” poderá ganhar uma nova resposta: Depende do mapa.

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