Talento

Entre outros aspetos, faltam-nos empresas atraentes, dinâmicas, que possam igualar salários internacionais, que sejam fontes de aprendizagem.

Talento
Francisca Guedes De Oliveira Web

Um dos temas que está cada vez mais na agenda política é a nossa capacidade para produzir, reter e atrair talento. Necessitamos de jovens, altamente qualificados, com um conjunto de competências cruciais para o aumento da produtividade e competitividade da nossa economia e que possam provocar uma mudança profunda na nossa estrutura produtiva.

As políticas públicas para a produção de talento têm funcionado com um significativo sucesso. As nossas universidades e politécnicos formam quadros, sobretudo nas áreas das tecnologias, reconhecidamente de primeira qualidade. Estas políticas devem continuar e o investimento no ensino superior deve ser reforçado.

Já na retenção de talento, sobretudo de talento jovem, temos ainda um caminho a percorrer. A importância desta retenção e o impacto que pode ter justifica-se em várias vertentes:

(i) Uma parte substancial deste talento é produzido em universidades e institutos públicos cujas propinas não cobrem, evidentemente, o custo por aluno. Este investimento deve, portanto, dar retorno para a economia.

Se estes jovens ficarem a trabalhar em Portugal (ou voltarem depois de ganharem experiência internacional), enriquecem o nosso tecido produtivo, contribuem para o erário público pagando impostos e densificam a faixa da população ativa qualificada, contribuindo para a sustentabilidade da segurança social.

(ii) Este talento jovem tem, naturalmente, potencial para constituir família. Ora, o deserto demográfico que se adivinha é outro dos grandes desafios que temos pela frente. Atrair e fixar jovens revela-se, também neste eixo, crucial.

(iii) Estes jovens têm um potencial empreendedor notável. Podem, por um lado, dinamizar e enriquecer as empresas onde trabalhem, mas podem, por outro, criar novos negócios ajudando a fazer crescer um ecossistema mais inovador e dinâmico com externalidades evidentes para a economia.

Ou seja, o desenvolvimento de políticas públicas para a retenção de talento jovem criado em Portugal (e também importado de outros países), pode ter impacto a nível da produtividade, competitividade, receitas fiscais, sustentabilidade da segurança social, demografia, dinamismo empresarial, e mudança de paradigma cultural e social.

Os filhos destes jovens tenderão a ser, eles próprios, qualificados e capazes de reproduzir o dinamismo da geração anterior.

Acredito que em Portugal temos algumas características naturais que ajudam neste desígnio. Temos um país tranquilo, seguro, com um ambiente político estável. Temos um clima bom e um conjunto de paisagens muito diversificadas. Temos uma dimensão agradável: não temos megacidades, mas temos escala suficiente para termos acesso a praticamente tudo.

Mas temos claramente obstáculos a ultrapassar.

Os nossos salários são baixos comparados com a média europeia, as rendas nas principais cidades têm subido substancialmente tornando difícil viver no centro, os sistemas de transportes públicos dentro das cidades e entre cidades são ainda insuficientes, tornando difícil a retenção fora das áreas metropolitanas principais.

E faltam-nos empresas: empresas atraentes, dinâmicas, que possam igualar salários internacionais, que sejam fontes de aprendizagem. Assim, parte das políticas públicas para a retenção de talento deve passar pela atração e estímulo a investimento de qualidade.

Há muito a fazer, mas é uma área aonde acredito que políticas ousadas, fora da caixa, inovadoras e ágeis podem e devem fazer toda a diferença.