Sudão: Enviado da ONU alerta para catástrofe humanitária e apela a cessar-fogo imediato

“Tem de haver um fim dos combates, a cessação das hostilidades, o que permitiria o início de um processo político [mas] ainda não chegámos a esse ponto”, admitiu o enviado especial.

Sudão: Enviado da ONU alerta para catástrofe humanitária e apela a cessar-fogo imediato
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O chefe da missão da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Sudão, Volker Perthes, alerta para a “catástrofe humanitária” no país, após três meses de acesos combates entre o exército e paramilitares, apelando a um cessar-fogo imediato.

“Penso que todos têm um grande interesse na estabilidade em África, quer esteja relacionada com a migração, com o desenvolvimento ou com a geopolítica. Qualquer que seja o ponto de vista em que se analise a situação, devemos preocupar-nos com a situação humanitária […] porque o Sudão está a tornar-se uma catástrofe humanitária”, afirmou Volker Perthes.

Em entrevista a agências internacionais baseadas em Bruxelas, incluindo a agência Lusa, no dia em que se reúne com representantes das instituições europeias, o representante especial do Secretário-Geral da ONU para o Sudão recordou que “já lá vão quase três meses de guerra e, ainda assim, nenhum dos dois lados é capaz de obter uma vitória decisiva”.

“Tem de haver um fim dos combates, a cessação das hostilidades, o que permitiria o início de um processo político [mas] ainda não chegámos a esse ponto”, admitiu.

De acordo com Volker Perthes, este está “prestes a transformar-se num conflito ideologizado de tribos de dimensão étnica, que está muito mais próximo de uma guerra civil total”, existindo por isso “o risco de este conflito se transformar num conflito regional”.

Admitindo que “esta guerra não terminará numa semana, nem em duas semanas”, o chefe da missão da ONU no Sudão salientou que “a comunidade internacional não deve ficar de braços cruzados”, nomeadamente no que toca à ajuda humanitária.

“É importante – e por vezes mais importante do que as pessoas imaginam – apelar às partes para que cessem as hostilidades imediatamente”, salientou Volker Perthes, defendendo ainda a criação de um fórum no qual os atores humanitários regionais e internacionais se reúnam “para exercer pressão suficiente sobre o Sudão para permitir que entre assistência humanitária”.

Cerca de um mês de ter sido declarado como ‘persona non grata’ pelas autoridades do Sudão, o responsável adiantou ainda que “é um pouco mais difícil” fazer o seu trabalho a partir de Nairobi, no Quénia, embora assegure que tem uma equipa no local e que esta é uma decisão sem “qualquer base jurídica”, já que tais designações não se aplicam a funcionários da ONU.

Hoje, o responsável está então em Bruxelas para reuniões com membros da Comissão Europeia e do Serviço de Ação Externa, com vista a esforços diplomáticos da UE para um cessar-fogo.

Estima-se que o conflito no Sudão tenha provocado, recentemente, quase três milhões de deslocados no país e mais de 700 mil que atravessaram as fronteiras para países vizinhos, como Egito, Chade, Sudão do Sul, Etiópia e República Centro-Africana.

Dados da ONU revelam ainda que quase metade da população no Sudão, cerca de 25 milhões de pessoas, precisa de assistência humanitária, pelo que se calcula que seja necessário um apoio humanitário de cerca de três mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros) para as agências humanitárias no terreno e para os refugiados.

Os combates entre o exército sudanês e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) começaram em meados de abril e até agora as partes beligerantes não mostraram qualquer intenção de chegar a um novo cessar-fogo.

O conflito fez, até agora, mais de 1.100 mortos, segundo o Ministério da Saúde sudanês, mas os números reais podem ser muito mais elevados, dada a violência intercomunitária desencadeada nas regiões do Darfur e do Cordofão.

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