Relatos oriundos da região de Darfur, no Sudão – um lugar que é há muito sinónimo de conflito armado – informam que os civis começaram a armar-se, ao mesmo tempo que organizam as suas próprias forças de defesa para se protegerem contra ataques de tribos rivais, bem como dos paramilitares da Forças de Apoio Rápido (RSF), uma das fações em conflito.
RSF e o exército sudanês estão há semanas na senda da guerra e o primeiro resultando de mais um conflito é um cada vez maior vazio de segurança que as tribos armadas estão agora a explorar – numa deriva de alianças e contra-alianças que também carateriza a existência recente do martirizado país.
“A situação de segurança em Cartum representa muitas ameaças para o povo de Darfur porque não há ninguém para controlar essas milícias árabes”, disse Ahmed Gouja, jornalista local e monitor de direitos humanos, citado pelo jornal “al Jazeera”. Os observadores admitem que, mais uma vez, a violência entre as duas partes do conflito seja usada como esteio para o regresso dos conflitos étnicos na região – que, tudo indica, não passarão nunca. Focos dessa espécie de sub-conflito étnico direcionado podem atingir particularmente em El Geneina, capital do Estado de Darfur Ocidental, que já foi palco de confrontos entre tribos árabes e não árabes no ano passado.
Desde esta terça-feira, residentes de tribos não árabes disseram que foram atacados pelas tribos árabes, que terão queimado abrigos instalados pelo governo e acampamentos para deslocados internos.
Instalações do governo local, mercados centrais, hospitais, bancos e armazéns pertencentes a organizações humanitárias internacionais também foram incendiados e saqueados e pelo menos 96 pessoas foram mortas na violência que despoletou na região. A polícia local – composta em sua maioria por não-árabes – convocou os membros das suas comunidades a aconselhou ao seu armarem para a autodefesa.
Entretanto, em Cartum, capital do Sudão, os combates terrestres e aéreos sucedem-se a um ritmo infernal. Uma reportagem do mesmo jornal afirma que devido aos contínuos ataques de artilharia e da aviação que se fizeram sentir nos últimos três dias em vários bairros da capital, a cidade está cada vez mais incapaz de sustentar necessidades básicas a as instalações públicas estão no limite.
“Os hospitais dizem que estão sobrecarregados e que precisam desesperadamente de mais pessoal médico e medicamentos. As lojas estão a ficar sem mercadorias e as pessoas estão a ficar sem dinheiro. A preocupação agora é que os combates se intensifiquem”.
Entretanto, o Comité Internacional de Resgate (IRC) pede que o mundo mude o foco para “aqueles que permanecem no Sudão”. O ex-ministro britânico David Miliband, presidente e CEO do IRC, divulgou uma declaração pedindo uma reavaliação global das prioridades ao pedir aos doadores, especialmente os da Europa, que aumentem o financiamento para as ONGs que se encontram no terreno.
“Embora as evacuações rápidas do Sudão tenham ajudado milhares, o que dizer dos quase 47 milhões de sudaneses que permanecem no país? Uma rápida onda de ajuda humanitária é a chave para ajudar milhões no Sudão. O IRC está a entregar ajuda crítica no país”, escreveu.