Serão as Prioridades da Supervisão anunciadas para 2019 as reais prioridades?

Serão as Prioridades da Supervisão anunciadas para 2019 as reais prioridades?
Rodolfo Pinto Final

O Banco Central Europeu comunicou em Dezembro último as prioridades do Mecanismo Único de Supervisão (SSM) para 2019:

Risco de Crédito. Apesar da redução do nível de Non Performing Loans (NPLs) no espaço SSM de 7,6% para 4,4% entre o fim de 2014 e o segundo trimestre de 2018, continua a ser prioritária a redução do stock destes ativos e a respetiva cobertura por imparidade. O acumular de NPLs em bancos e sistemas que ainda não tenham conseguido reduzir o stock tornará as economias em que se encontram mais vulneráveis a uma eventual crise financeira. Outra prioridade no âmbito do crédito é a avaliação da qualidade dos critérios de concessão do novo crédito.

Gestão do Risco. O enfoque estará nos modelos de quantificação de risco, estando a atenção do supervisor na redução da volatilidade injustificada dos requisitos de capital (RWA). Tal ação poderá conduzir a uma menor sensibilidade dos RWA aos riscos efetivamente incorridos e a uma menor ciclicidade dos requisitos, perdendo-se assim parte do espírito de Basileia II.

Ainda na temática da Gestão do Risco, merecerá especial atenção a gestão dos riscos com impacto em capital e liquidez (ICAAP, ILAAP) e os riscos de IT e cibernéticos.

Atividades em Outras Dimensões. Surgem como prioridades as ações relacionadas com o Brexit e com os impactos da nova regulamentação para cálculo dos requisitos de capital, a designada Basileia IV.

Contudo, pese embora não seja expectável que o BCE reveja as prioridades anunciadas, na prática a alteração do Chair do Supervisory Board do BCE, com a entrada de Adrea Enria para o lugar da Ms. Daniéle Nouy, poderá conduzir a alterações estratégicas relevantes. Para já, o novo Chair refreou o entusiasmo com a bandeira dos NPLs, tendo comentado que as medidas já adotadas pelo SSM para mitigar o stock e pile-up de NPLs foram as adequadas, pelo que a ação do supervisor deverá agora centrar-se sobretudo na monitorização da respetiva evolução e não em novas iniciativas.

Também Ignazio Angeloni, outro importante membro do BCE no Supervisory Board referiu, num discurso recente, estarmos perante a inversão do ciclo de política monetária na Europa, o que retirará a liquidez excessiva dos mercados, tornando-os mais voláteis e sujeitos aos riscos de mercado, o que se reflete num aumento dos perigos de contágio. Adicionalmente, alertou para a reemersão dos riscos soberanos, salientando que a evidência demonstra que quando os spreads do risco soberano aumentam, todos os bancos nessa jurisdição são afetados.

Atendendo a que ambos os riscos acima referidos são difusos, afetando os bancos SSM area wide ou country wide, e que os instrumentos e ações de intervenção do supervisor microprudencial tendem a focar riscos idiossincráticos, é expectável (e desejável) que a atuação do supervisor se adapte, passando a acomodar ações de natureza macroprudencial, por forma a continuar a garantir a estabilidade financeira.

Não sendo de esperar que o Supervisor reveja as prioridades comunicadas ao sistema, tudo indica, todavia, que com a viragem do ano se tenha alterado a real agenda e preocupações do Supervisory Board.

Relacionado

EY EnergyShot com Filipe Santos

EY EnergyShot com Filipe Santos

JE Lab28 Ago
Neste episódio, recebemos Filipe Santos, CEO do Smart Energy LAB, uma organização que se dedica ao desenvolvimento de soluções inovadoras para acelerar a transição energética. Numa conversa conduzida por José Roque, Partner EY, Energy & Resources Sector Leader, foram explorados os desafios da mobilidade elétrica e o papel da inovação no futuro da energia. Em destaque esteve o EDGE, uma solução tecnológica focada na gestão inteligente de carregamento de veículos elétricos em edifícios com estacionamento partilhado.