Artigo originalmente publicado no caderno NOVO Economia de 22 de julho, com a edição impressa do Semanário NOVO.
O turismo representa cerca de 25% do produto interno bruto e do emprego de Cabo Verde e está em recuperação acelerada, depois da crise provocada pela pandemia de covid-19, tendo o país recebido, no ano passado, mais turistas do que em 2019. Em entrevista ao NOVO, o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas e ministro do Mar diz que a economia azul e a cultura também vão contribuir para o seu desenvolvimento.
Como quer ter a economia azul a contribuir para o turismo?
A economia azul só faz sentido se pensarmos no potencial do mercado de, neste momento, quase um milhão de visitantes por ano, que nós acreditamos que, com a resolução do problema dos transportes marítimos e aéreos, pode rapidamente duplicar ou triplicar. Temos aqui diversos nichos da economia azul ligados ao turismo, não só a observação dos grandes pelágios – em Cabo Verde, neste momento, temos uma ilha [que é] reserva natural integral, que é a ilha de Santa Luzia, e temos dois berçários de tubarões e outro de baleias. Estamos a regulamentar o sector de observação de grandes peixes, fazendo com que também seja um vetor que impulsione Cabo Verde para garantir o cumprimento de, pelo menos, 30% da área marinha reservada.
Também quer que a cultura tenha um papel mais importante. Como?
Sem conteúdo cultural, Cabo Verde é mais um destino [turístico] banal. Marrocos tem melhores praias, a Tunísia, a Mauritânia, o Senegal, a Gâmbia. O que é o diferencial de Cabo Verde? Nós temos a primeira cidade fundada pelos portugueses, pelos europeus. Temos uma cultura claramente crioula, mista, multicultural, aberta ao mundo. Temos uma sociedade em que, apesar dos discursos identitários, temos todos os tons de pele; portanto, uma sociedade que deve estar livre do racismo, obrigatoriamente.
E como vai concretizar esta ideia?
Através do processo que nós estamos a fazer desde 2016. Tudo o que fizemos foi praticamente a 80% financiado pelo Fundo Turismo. O senhor primeiro-ministro tem essa visão muito clara de perceber que a cultura só poderia ter instituições ao nível daquilo que o turismo precisa, nomeadamente museus, património reabilitado, se fosse financiado por parte daquilo que são os dividendos do turismo. E fizemo-lo reabilitando todas as igrejas centenárias, estamos a construir novas salas de espetáculos. Reabilitámos, por exemplo, um património de triste memória que é o campo de concentração do Tarrafal, 100% financiado por Cabo Verde; reabilitámos não só o edifício, como o colocámos no novo projeto museológico, museográfico, construindo, dando vida e tornando evidente e explícito aquilo que é o nosso percurso como povo, enquanto nação.
Todo o processo de candidatura da morna a património da humanidade, de reabilitação da cidade velha como sítio histórico, tem a ver com essa perspetiva de que, quando se chega a Cabo Verde, a narrativa tem de ser perfeita, mas também os turistas têm de ter mais conteúdos. Aliás, uma das penalizações que Cabo Verde sempre recebeu no índice de competitividade tem a ver com a falta de conteúdos culturais para os turistas.