Para Leão XIV visita Espanha e fornece nova vida política a Pedro Sánchez

Os espanhóis dificilmente perdoaram ao Papa Francisco nunca ter visitado Espanha. Do mesmo modo, dificilmente esquecerão que Pedro Sánchez conseguiu preencher essa lacuna – numa altura em que precisa de todas as ajudas, talvez mesmo as divinas, para levar a legislatura até ao fim.

Para Leão XIV visita Espanha e fornece nova vida política a Pedro Sánchez
epa12084646 Newly elected Pope Leo XIV, Cardinal Robert Francis Prevost from the USA, greets faithfuls from the central loggia of Saint Peter's Basilica, Vatican City, 08 May 2025. EPA/FABIO FRUSTACI

O Papa Francisco, argentino de nascimento e desaparecido em 21 de abril de 2025, fez 47 viagens apostólicas, visitou 66 países, esteve duas vezes em Portugal, foi contemporâneo do conservador católico e chefe do governo Mariano Rajoy e nunca pisou solo espanhol – algo que os autóctones recordam como uma traição que só se perdoa por ele ser quem era. Foi preciso o norte-americano Robert Francis Prevost ascender ao trono pontifício como Leão XIV para um socialista ateu, Pedro Sánchez, ter tido as artes diplomáticas necessárias e suficientes para convencer o líder do Estado do Vaticano a dar um salto a Espanha.

Não é por certo a mesma Espanha que fervia de catolicismo durante o franquismo, muito menos é o mesmo país que há uns séculos viu os seus monarcas ascenderem à categoria de ‘reis católicos’ e por essa via tomarem conta (pelo Tratado de Tordesilhas) de tudo o que erradamente achavam que seria o melhor do novo mundo (não admira: o Papa que assinou o tratado era um espanhol da família Borgia, Alexandre VI). Mas é com certeza um país que confirma o ascendente que Pedro Sánchez assume no intrincado e mais ou menos enlouquecido mundo diplomático contemporâneo, fator que, para todos os efeitos, não será despiciendo.

A visita dá-se numa altura particularmente difícil para o chefe do governo: a onda de casos de corrupção – entre acusações, perceções e confirmações pelos tribunais – não para de crescer em seu redor, praticamente só deixando incólumes as duas filhas Ainhoa e Carlota, mas não a mãe delas, Begoña Gómez. Acusado de insistir num casamento de conveniência com independentistas moderados e independentistas muito pouco moderados – e por isso tendo pecado por sedição e tentativa de secessão – Sánchez já demonstrou ser capaz de fazer qualquer coisa, qualquer coisa, para levar até ao fim a legislatura, que começou de uma forma pouco auspiciosa: perdeu as eleições de julho de 2023.

Se tudo correr como está previsto no calendário, falta mais de um ano, não muito, para os espanhóis serem novamente chamados às urnas – a não ser que o líder da oposição conservadora, o galego Alberto Núñez Feijóo, encontre uma forma de o impedir. Ou alguém por ele: está claro para todos que, se se der o caso de o Partido Popular escolher substituir Feijóo por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, a coordenação entre conservadores e extremistas do Vox será ’oleada’ e Pedro Sánchez não resistirá a uma moção de censura que os dois partidos votem favoravelmente. A mesma maioria, afinal, que, se combinada em 2023, teria impedido Sánchez de formar governo.

 

Pormenores da visita: atenção aos imigrantes

“É uma visita a todos, não apenas para os católicos praticantes. Numa agenda repleta de eventos e encontros, públicos e privados, Leão XIV aproveitará a visita para fazer o que o ser Papa lhe exige: ser pontífice, construtor de pontes. Pontes que se constroem por meio do diálogo, da cultura do encontro, e assim encontram aquilo que nos une àqueles que estão ao nosso lado.” É desta forma que o ‘Vatican News’ apresenta a visita de Leão XIV a Espanha. E continua: “autoridades civis, políticos de diferentes orientações políticas e religiosas, pessoas comuns, inclusive de outras crenças, jovens das mais diversas origens, católicos praticantes, seus irmãos agostinianos, representantes de uma sociedade e de um universo cultural cada vez mais diversos, multirracial e multicultural, bispos, paroquianos, voluntários e tantos outros que, mesmo sem constar na agenda oficial, ocuparão o tempo e a atenção do Santo Padre”.

Leão XIV chega a meio da manhã deste sábado a Madrid e depois visitará Barcelona e as ilhas de Las Palmas e as Grandes Canárias. Haverá por lá muitos católicos praticantes? Possivelmente sim, mas o foco do Papa reside no facto de o arquipélago das Canárias se ter tornado num dos caminhos mais usados e perigosos para quem foge de África em direção à Europa. Para que não restem dúvidas sobre as intenções do Papa, Leão XIV visitará o Porto de Arguineguín, que se tornou o grande símbolo da chegada de barcos de imigrantes e refugiados a uma Europa que se armou de todas as leis possíveis e imaginárias para os lançar de regresso ao mar – com ou sem colete salva-vidas, isso é problema deles! O líder da Igreja Católica vai fazer uma homenagem àqueles que morreram tentando chegar ao lugar de todas as promessas de felicidade: a mesma Europa que tentou transformar o cristianismo apostólico num movimento católico (ou seja, universal), mas que disso frequentemente se esquece.

Antes disso, um dos momento mais aguardados será a missa que Leão XIV conduzirá na ‘inexplicável’ igreja da Sagrada Família – um dos fenómenos mais impressionantes do génio humano na disciplina da arquitetura. Muitos espanhóis querem beatificar Antoni Gaudí, o arquiteto ‘inicial’ da basílica – também conhecido como o Arquiteto de Deus’. A vontade não é recente: Gaudi está oficialmente no caminho para se tornar santo da Igreja Católica e os espanhóis mais fervorosos esperam notícias sobre a matéria. No dia 14 de abril de 2025, uma semana antes da sua morte, o Papa Francisco recebeu em audiência o cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, e autorizou a promulgação do decreto relativo as virtudes heroicas de Antoni Gaudí, que passou a venerável. Morreu aos 73 anos, em 1926, vítima de um atropelamento por um elétrico. Diz a lenda que costumava andar tão andrajoso que só foi reconhecido muito depois de ter chagado ao hospital.

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