O palco foi a sua casa

Três dias separam a morte de dois nomes maiores da Cultura portuguesa. O óbvio é dizer que ficámos todos mais pobres. Sim, mas o desafio, agora, é continuar a dar luz ao seu trabalho, acarinhando o talento que existe na cena musical e teatral do país.

O palco foi a sua casa
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A voz risonha que trouxe luz a tanta gente
Recordo uma noite quente. 100% de humidade que teimava em colar-se à pele. As vozes tornavam-se mais audíveis. Um grupo de amigos estava à entrada do bar, os cigarros queimavam sem que os levassem à boca. O entusiasmo era grande. “Ouviste isto?! É uma miúda, pá… mas que vozeirão!”. De um gravador saía uma voz quente como aquela noite. Os três ‘www’ eram então uma experiência contida e a globalização um termo pouco em voga, mas havia notícias que viajavam tão rápido como os algoritmos de hoje.

Ouvia-se “One moment in time”, de Whitney Houston. Mas aquela voz não era a de Whitney. Em Lisboa, alguém gravara a miúda de 16 anos que suspendeu o tempo e que venceu a primeira edição de “Chuva de estrelas”. Em Macau, do outro lado do planeta, outra pessoa recebeu essa gravação áudio tosca e partilhou-a com amigos. Sem rosto, Sara Tavares era toda ela uma chama que brotava música por todos os poros.

Ficámos siderados. Não fomos os únicos.

Estávamos em 1994 e o vulcão Sara não deixou ninguém indiferente. Ainda o ano não terminara e já Rosa Lobato Faria a convidava para participar no Festival RTP da Canção. Venceu com a canção “Chamar a música”. E a música continuou a ‘chamá-la’ quando, antes de arrebatar o oitavo lugar no Eurofestival, realizado na Irlanda, assinou um contrato com a produtora BMG. “Sara Tavares & Shout”, chegou dois anos depois, em 1996, o single que gravou com um grupo gospel formado especialmente para acompanhá-la, sob a coordenação do missionário norte-americano Dale Lee Chappell.

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