Normalidade

Normalidade
João Gonçalves Pereira Final

joAs opiniões acerca dos resultados das eleições europeias divergem. Os mais optimistas apontam para o facto dos extremos não terem ganho tanto poder quanto seria expectável, mantendo o ideal europeu vivo. Os mais cépticos, porém, vêem na perda de mandatos dos partidos do centro um cartão amarelo e apontam a perda de credibilidade das instituições europeias no longo prazo.

Opiniões à parte, segunda feira, dia 27 de maio, foi marcado pelo regresso à normalidade, com as grandes “famílias” europeias a iniciarem desde logo as negociações para a partilha dos mais altos cargos dos órgãos de decisão da UE.

Regressaram também os temas intermináveis, como a incerteza em torno do Brexit, agora sem Theresa May, o abrandamento da economia e as possíveis sanções à Itália pelo incumprimento do défice orçamental acordado com Bruxelas. Neste contexto, as taxas de juro alemãs a 10 anos continuam a descer e atingem neste momento os -0,15%. Ou seja, os investidores continuam a procurar refúgio, comprando obrigações, nem que para isso tenham de pagar ao governo alemão nos próximos 10 anos.

O fenómeno de taxas negativas, apesar de ter os seus efeitos positivos para os devedores e para os governos com défice, colocam uma ameaça sobre o sector financeiro e sobre a sustentabilidade das poupanças e da segurança social. Por exemplo, as acções do Deutsche Bank, cuja tentativa de fusão com o Commerzbank falhou, atingem mínimos históricos, indicando que algo não está nada bem, e que os investidores têm receio que um evento sistémico possa acontecer na zona euro.

A queda das acções do sistema financeiro na generalidade é um sintoma da dificuldade de obter rentabilidade com pouco risco neste ambiente de taxas negativas. Na realidade, a única receita aplicável para um aumento dos proveitos financeiros sustentados é a subida das comissões cobradas aos clientes. Se o contribuinte não paga por via dos impostos acabará por pagar os excessos, ou a política de taxas negativas, por via do aumento das comissões bancárias. E não nos esqueçamos que todos os contribuintes acabam por ser depositantes.

Aqueles que pensam ser impossível uma intervenção por parte do BCE, pensem duas vezes. Pela primeira vez em 30 anos, o Banco Central da China interveio numa instituição, o Baoshang Bank, tomando o seu controlo, uma vez que colocava riscos ao restante sistema financeiro. Apesar da sua pequena dimensão, representando 2,5% dos activos do sistema, o impacto derivado do incumprimento das suas obrigações e a incerteza da segurança dos depósitos, poderia ditar uma corrida aos bancos, algo que o Banco Central irá evitar a todo o custo.

A par da incerteza acerca do futuro, lidamos com uma guerra, que mais do que comercial, tem a ver com tecnologia e sobre quem irá dominar o 5G. A Europa neste capítulo também parece perder terreno, ficando dependente de fornecedores externos que poderão um dia comprometer a segurança europeia.

Haverá que tirar ilações do resultado das eleições, rapidamente, apresentando respostas aos cidadãos que pretendem cada vez mais proteção e um mundo mais sustentável, e não regressar à normalidade. Dessa, os eleitores estão cansados.