Biometano pode abastecer até 60% do consumo de gás em Portugal até 2030 e custar um terço da eletrificação total

O biometano pode substituir até 60% do consumo de gás natural em Portugal até 2030, mas o setor alerta para entraves como a falta de regras claras de ligação à rede, incentivos insuficientes à produção e atrasos nas garantias de origem e no enquadramento no mercado de carbono, o que pode travar a expansão da tecnologia, defende a ATMAS.

Biometano pode abastecer até 60% do consumo de gás em Portugal até 2030 e custar um terço da eletrificação total
Biogas

A produção de biometano em Portugal tem potencial para substituir até cerca de 60% do consumo atual de gás natural até 2030, posicionando-se como uma das soluções mais relevantes para cumprir as metas de descarbonização. A estimativa é avançada por Gonçalo Salazar Leite, diretor-executivo da ATMAS — Associação para os Gases Renováveis, uma nova entidade criada por operadores das redes de distribuição de gás e outros agentes do setor para promover o desenvolvimento dos gases renováveis em Portugal.

“Estimamos que aproveitar a infraestrutura existente de gás e desenvolver o biometano custará ao contribuinte um terço do que significaria eletrificar toda esta energia final”, afirmou.

O responsável sublinhou ainda que esta diferença representa “uma poupança muito significativa para o contribuinte”.

A criação da ATMAS surge da necessidade de coordenar esforços entre indústria, reguladores e decisores políticos, num momento em que o país enfrenta metas exigentes de redução de emissões. Entre elas está o pacote europeu Fit for 55, um conjunto de propostas legislativas da União Europeia que visa reduzir em pelo menos 55% as emissões de gases com efeito de estufa até 2030, face aos níveis de 1990.

Para o responsável, o biometano deve ser integrado numa lógica de complementaridade com a eletricidade. “Não estamos perante uma escolha entre eletrificar ou não. Trata-se de usar os diferentes vetores energéticos da forma mais eficiente possível”, defendeu.

“A rede de gás está paga, funciona bem e está preparada para o futuro, nomeadamente para integrar gases renováveis como o biometano. O sistema nacional de gás não tem défice tarifário e seria um desperdício não aproveitar esta infraestrutura”, afirmou.

O potencial do biometano em Portugal assenta sobretudo na valorização de resíduos — urbanos, agrícolas e industriais — permitindo não só produzir energia renovável, mas também contribuir para a economia circular e reduzir emissões.

A indústria surge como principal destino deste gás, especialmente setores com forte dependência de energia térmica, como a cerâmica e o vidro. “Claro que a indústria é prioritária”, afirmou, alertando que a eletrificação, nestes casos, poderia implicar custos muito elevados.

Apesar do potencial, o desenvolvimento do setor enfrenta entraves significativos ao nível da regulamentação. Entre as principais falhas estão: a inexistência de um mecanismo claro e viável de ligação dos produtores à rede de gás, a ausência de sistemas eficazes de incentivos à produção e utilização (como quotas de incorporação), o atraso na operacionalização das garantias de origem e a falta de enquadramento pleno no Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE).

“O que precisamos é de acelerar a construção de legislação e a implementação que permita integrar os gases renováveis nas políticas públicas”, defendeu.

O Plano de Ação para o Biometano (PAB) estabelece como meta atingir 2,7 TWh de produção até 2030, um objetivo que considera alcançável, desde que haja maior rapidez na execução. “É uma meta perfeitamente realista”, afirmou.

Atualmente, existem três unidades de produção em funcionamento em Portugal, mas o potencial de crescimento é significativo. Estão identificados mais de 50 projetos e cerca de 70 unidades que poderão ser desenvolvidas ou convertidas para produção de biometano no curto prazo, aproveitando infraestruturas e recursos já existentes.

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