Nações muçulmanas tentam resgatar a Síria do esquecimento

Uma das formas de o conseguir é aceitar o regresso do regime de Bashar al-Assad à condição de membro de pleno direito da Liga Árabe. Mas os países que a compõem não estão, para já, alinhados. Nove países islâmicos debatem a questão em Riad.

Nações muçulmanas tentam resgatar a Síria do esquecimento
Bashar al-Assad

Onze anos depois, a guerra na Síria ainda não acabou – nem formalmente nem no terreno – e uma das consequências de uma década de confronto foi o alheamento da comunidade internacional face ao que se passa com o regime de Bashar al-Assad. A presença do presidente sírio tornou-se ‘tóxica’ para a maioria do mundo – mas, quando a meio de março passado, foi recebido pelo presidente russo, Vladimir Putin, alguma coisa começou a mudar.

Desde logo, as potências envolvidas no território – Rússia, Irão e Turquia – voltaram (ou estão a tentar voltar) à mesa das negociações. Mesmo que cada país tenha uma agenda diferente: grosso modo, a Turquia quer perseguir os curdos, o Irão quer aumentar a projeção do xiismo e a Rússia quer distender o cerco a que está submetida.

Mas, aparentemente, não é só este trio que está apostado no regresso da Síria: a Liga Árabe está a fazer esforços, segundo a imprensa do Médio Oriente, para retirar o regime do completo ‘lock out’ a que está votada pela comunidade internacional. Recorde-se que a Síria, país muçulmano, foi suspenso da qualidade de membro de pleno direito da Liga Árabe pouco tempo depois do início do conflito, em 2011, e, apesar das ‘ameaças’, nunca mais recuperou a posição.

Mas isso pode estar prestes a mudar. Delegados de nove nações muçulmanas estão reunidas na Arábia Saudita para discutir a possibilidade de normalização das relações com a Síria – o que prevê o seu regresso à condição de membro de pleno direito da Liga Árabe.

Ministros e altos funcionários dos seis países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) – Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – juntamente com os do Egipto, Iraque e Jordânia , encontraram-se esta sexta-feira, a pedido da Arábia Saudita.

A Arábia Saudita, um dos países mais resistentes à normalização das relações com al-Assad, disse que após uma reaproximação com o Irão, o principal aliado regional da Síria, é necessária uma nova abordagem com Damasco.

Riad convidou o ministro das Relações Exteriores da Síria, Faisal Mekdad, para conversas na passada quarta-feira, de que resultou a possibilidade de os dois países reabrirem as embaixadas em breve. A ligação aérea entre as duas capitais também está em cima da mesa.

A perspetiva parece ser a de que, quando os 22 membros da Liga Árabe se encontrarem na próxima reunião da organização, que terá lugar na Arábia Saudita em maio, a Síria regresse aoo seu lugar. Mas nem todos parecem estar alinhados: o Qatar afirmou que “não há nada proposto, é tudo especulação”, pela voz do primeiro-ministro, o Sheikh Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani, citado  por vários jornais do Médio Oriente. A estas palavras não será por certo alheio o facto de o Qatar ser, no seio do GCC, uma das monarquias mais próximas do Ocidente.

A alternativa, segundo os analistas, pode ser um regresso “suave” da Síria: uma espécie de período de observação – a que com certeza virá agregado um ‘caderno de encargos’. O interesse da Arábia Saudita em restabelecer laços com a Síria deve ser visto como parte da sua marcha em direção à chamada Visão 2030 – uma iniciativa que procura diversificar e privatizar a economia e torná-la menos dependente do petróleo, e que necessariamente dependerá em larga medida do investimento direto estrangeiro, parte dele oriundo do Ocidente.

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