Municipais em França dão boas indicações à extrema-direita para as presidenciais de 2027

O Rassemblement National conseguiu registar um aumento sem precedentes no quadro geral do país, o que constitui uma excelente ‘rampa de lançamento’ para as eleições presidenciais no segundo trimestre de 2027. Mas a extrema-esquerda também não se saiu mal.

Municipais em França dão boas indicações à extrema-direita para as presidenciais de 2027
epa11424730 French far-right Rassemblement National (RN) party President and lead MEP Jordan Bardella at the audition of candidates of legislative elections organised by French business confederation (Medef), in Paris, France, 20 June 2024. The French president announced on 09 June the dissolution of the National Assembly and called for new elections on 30 June and 07 July. EPA/Teresa Suarez

A extrema-direita francesa, liderada pelo partido Rassemblement National (RN), de Marine Le Pen e Jordan Bardella, registou um aumento sem precedentes da sua implantação municipal no final das eleições a duas voltas para as regiões: conquistou 14 municípios qu até este domingo estavam nas mãos da direita moderada – incluindo Nice – e quatro da esquerda, totalizando 941.298 residentes. Manteve também o controlo de nove municípios,

A direita, que há seis anos conquistou 304 municípios em grandes cidades, manteve a maioria delos, como em Toulouse, onde Jean-Luc Moudenc foi reeleito contra um candidato do La France Insoumise (LFI). Também venceu em 26 cidades de esquerda, como Brest, Clermont-Ferrand, Avignon, Cherbourg, Istres e Alençon, representando uma população total de um milhão de habitantes.

A esquerda moderada conseguiu manter a maioria dos seus principais redutos, como Paris, Marselha, Nantes, Montpellier e Lille. Também conquistou 13 cidades que antes eram de direita, incluindo Saint-Étienne, Le Blanc-Mesnil e La Roche-sur-Yon. No entanto, perdeu cerca de cinquenta municípios, para a esquerda radical (seis deles), para o centro (14) e para a direita (26).

Segundo os resultados divulgados pelo Ministério do Interior após a contagem completa (excluindo a Polinésia), as listas do RN e seus aliados conquistaram 55 municípios com mais de 3.500 habitantes, incluindo 38 na segunda volta e 17 na primeira. Além disso, a RN elegeu 3.006 vereadores, quase o dobro do recorde anterior de 1.544 representantes eleitos, alcançado durante as eleições municipais de 2014. O partido de extrema-direita ainda enfrenta barreiras em grandes cidades como Toulon, Nîmes e Marselha, mas está consolidado nas regiões do sudeste e do nordeste.

Era claro para todos os partidos em confronto que as eleições municipais seriam um poderoso indicador – apesar de multiplicidade de declarações em contrário. E, nesse contexto, a dupla ronda serviu para confirmar que o RN pode antecipar que conseguirá bons resultados nas eleições presidenciais de 2027, que acontecerão em maio ou junho. E um bom resultado não é passar à segunda volta – como vem sucedendo – mas ganhar a segunda volta. O facto de ter conseguido diversas vitórias à segunda volta prova que o ‘cerco sanitário’ em sua volta – uma espécie de ‘todos contra um’ – está a deixar de funcionar, libertando o partido do estigma das coligações negativas que foram sempre forma de fazer perde Marine Le Pen.

O seu problema mais óbvio parece agora residir no facto de Jordan Berdella ter menos ‘tração’ que Marine Le Pen entre os franceses. Se finalmente ficar clarificado que a mais importante líder do partido será impedida de concorrer às presidenciais, o RN pode ter dificuldade em impor o seu atual presidente. Se por uma qualquer razão, Marine Le Pen conseguir ultrapassar o impedimento, tudo indica que será a próxima presidente de França – até porque terá a vantagem de poder exibir o que com certeza chamara de perseguição dos poderes tradicionais.

Vale a pena recordar que Marine Le Pen foi condenada por desvio de fundos europeus em 2025 e que a sentença implica cinco anos de inelegibilidade. Mas a líder da extrema-direita recorreu da decisão e o caso ainda está a ser analisado. O tribunal de recurso deve decidir ainda este ano: se a inelegibilidade for confirmada, Le Pen estará fora da corrida; mas, se a pena for reduzida para menos de dois anos, a possível candidata alegará que já a cumpriu. Resta ainda o caso mais difícil: pode haver uma suspensão da pena, o que criará uma questão juridicamente ambígua.

 

O outro extremo

Do outro lado, a extrema-esquerda do LFI conseguiu vitórias importantes em algumas cidades (Saint‑Denis e Roubaix), e manteve desempenhos relevantes, concorrendo sozinho ou em coligação com os socialistas e/ou os Verdes. Além disso, em grandes centros (como por exemplo, Paris), a LFI aumentou a sua representatividade e conseguiu avanços locais importantes, sobretudo no norte em certas periferias urbanas.

O partido concentrou as suas candidaturas para as eleições municipais em territórios já favoráveis ​​ao voto em Jean-Luc Mélenchon, ou marcados pela presença dos seus representantes eleitos. Embora as alianças à esquerda tenham sido bem-sucedidas em Lyon, Nantes e Grenoble, levaram a derrotas significativas em Limoges, Brest, Besançon, Clermont-Ferrand, Poitiers e Toulouse, o LFI obteve importantes vitórias em Roubaix, La Courneuve e Vénissieux – mas perdeu Faches-Thumesnil.

Para todos os efeitos, nem o LFI nem, por acrescento, o seu líder, Mélenchon, deixaram de ser uma força a considerar. O que também é um bom indicador para as presidenciais de 2027. Convém não esquecer que Jean-Luc Mélenchon ficou a apenas algumas décimas de conseguir passar à segunda volta nas eleições de 2022, quando conseguiu 21,95%, contra os 23,15% de Marine Le Pen (e os 27,84% de Emmanuel Macron). Ora,m desta vez não haverá Emmanuel Macron – ou seja, a ‘prova de vida’ que Mélenchon conseguiu nas eleições municipais deste domingo são um indicador que a esquerda não poderá desprezar. Até porque os socialistas – que têm colecionado maus resultados desde que François Hollande não se recandidatou em 2017 – ainda não têm um candidato que possa assumir um destaque imbatível para ser candidato de toda a esquerda em 2027.

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