Com cada vez mais pessoas a viver nas cidades, as especificidades da vida no campo vão sendo esquecidas e, nalguns casos, os costumes vão-se perdendo e tornando-se estranhos. Não exóticos, apenas estranhos, o que faz aumentar a distância entre os mundos urbano e rural. E os estereótipos – normalmente, pejorativos – que a população das urbes criou na sua forma de olhar os camponeses enterram cada vez mais fundo uma cultura rica e complexa, de tradições profundamente ligadas à terra e onde o respeito pela natureza se vai esboroando à medida que crescem os efeitos nefastos das alterações climáticas e da industrialização da agricultura e da pecuária.

De tempos a tempos, há quem contrarie esta tendência e largue a vida citadina para se instalar no campo. É o caso de Violaine Bérot (n. 1967) que trocou o seu emprego na área da informática pela criação de cabras nos Pirenéus e pela escrita, e de quem a Antígona acaba de publicar “Como Animais”, traduzido por Luís Leitão.
Partindo dos depoimentos dos habitantes de uma aldeia isolada nos Pirenéus, quando uma criança desconhecida é avistada numa gruta e a suspeição se abate sobre um deles, reavivando antigas lendas e mistérios, a autora cria um poderoso conto da montanha, onde a incompreensão pela ruralidade a que aludíamos acima provoca mais um sulco no fosso que separa estes dois mundos. E, como os bons livros têm o condão de nos levar a outras leituras, repescámos “Almas Cinzentas”, de Philippe Claudel.
Eis a sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.