Literacia financeira desde a Infância

Ser detentor e agilizador de um conjunto de competências financeiras é hoje em dia determinante para o bem-estar pessoal e coletivo e para uma economia mais saudável.

Literacia financeira desde a Infância
Sofia Ramalho Web

Com os avanços tecnológicos, a integração da economia na Europa e no mundo, e a facilidade com que se movimenta dinheiro através de aplicações digitais, a informação, o conhecimento ou o conhecimento da informação sobre economia e finanças, tornam-se essenciais à prevenção do risco de más decisões financeiras, por exemplo, sobre poupanças ou recurso a crédito, investimentos, ou gestão do orçamento pessoal ou familiar.

As responsabilidades financeiras dos cidadãos são cada vez maiores e para muitos a linguagem é complexa, mas é certo que faz agora parte integrante do quotidiano de todos, incluindo dos jovens, uma população particularmente vulnerável e que, em plena era digital, pouco experiencia a manipulação concreta do dinheiro em mão e escassamente efetua transações comerciais e financeiras diretamente.

Ademais, particularmente as crianças e jovens (embora seja o caso de muitos adultos também) têm mais dificuldade em se autorregular e, por exemplo, adiar gratificações imediatas, aspeto essencial quando estamos perante tomadas de decisão sobre consumos/gastos, ou até sobre poupanças ou atitudes previdentes com base em objetivos a médio/longo prazo.

A conhecida experiência levada a cabo pelo psicólogo Walter Mischel nos anos 60 é ilustrativa: cerca de 500 crianças de 4 anos receberam 1 marshmallow e foi-lhes dito que poderiam escolher entre comer a guloseima naquele momento, ou aguardar e mais tarde receberiam mais 1 marshmallow. Enquanto uns acabaram por comer a guloseima (após resistir), outros aguardaram, usando estratégias diferenciadas como virar costas, falar sozinhas ou cantar, para distrair o desejo.

Interessante é que as mesmas crianças que esperaram pelo segundo marshmallow, avaliadas anos depois, obtiveram melhores pontuações nos testes de aferição escolar, com uma diferença significativa, entraram em melhores escolas e apresentaram comportamentos mais positivos. Quarenta anos depois, essas mesmas crianças que demonstraram maior controlo e autorregulação, apresentavam melhores empregos e salários mais altos.

Este exemplo é revelador, por um lado, da possibilidade das competências financeiras poderem ser aprendidas e desenvolvidas, e gerar comportamentos e decisões adequados a partir de estratégias intencionais e, por outro, da importância de uma intervenção preventiva, através da promoção da literacia financeira, da capacidade de tomada de decisão e da prevenção de riscos junto de crianças e jovens, desde o início da escolaridade.

A literacia financeira é aliás uma das propostas integrantes do currículo da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento para o ensino básico e muito haverá ainda a operacionalizar nas escolas, para responder à estratégia definida pela OCDE desde 2014.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses, que integra a Comissão de Acompanhamento do Plano Nacional de Formação Financeira, tem estado a desenvolver ações e formação financeira dirigidas aos psicólogos da educação, com vista à aplicação da ciência psicológica na promoção de atitudes, comportamentos e tomadas de decisão financeira nos jovens, e na sua generalização eficaz para fora do contexto da escola, desenvolvendo neles a confiança para tomar decisões, priorizar ou gerir os seus orçamentos (mesada ou outros), definir objetivos e estratégias de poupança, numa abordagem mais experiencial e por isso mais promotora de uma cultura financeira que vise o seu bem-estar no presente e no futuro.