JE Lab e Ana Pinto, Efficiency Architect na Askblue

Kristin: Como a tecnologia pode garantir o futuro económico da floresta

A 28 de janeiro, como muitos portugueses que se encontravam fora da zona centro, vivi a angústia de não conseguir contactar a minha família. Sem comunicações e com estradas bloqueadas por quedas massivas de árvores, postes e várias estruturas, enfrentava o paradoxo de estar próximo da tragédia e a impossibilidade de agir. Apesar de emocionalmente difícil, a decisão de esperar revelou-se racional e inevitável.

Quando, 24 horas depois, consegui finalmente deslocar-me, vi uma realidade que ultrapassava qualquer expectativa: infraestruturas de eletricidade e comunicações severamente danificadas e sinais evidentes de que a normalidade demoraria a regressar. No entanto, encontrei também o espírito resiliente da minha família, uma capacidade de organização, ação e entreajuda que permitiu assegurar bens essenciais, montar soluções improvisadas e reconstruir cinco telhados para proteger os animais e os bens. Foi um exercício intergeracional de urgência e solidariedade, num ambiente onde cada pequena vitória contava. Porém, esta reconstrução doméstica foi apenas uma pequena parte de um impacto mais profundo. O verdadeiro desafio está na floresta.

Com a circulação restabelecida, tornou-se possível avaliar o alcance real dos danos. Entre a Figueira da Foz e Leiria, estima‑se que a tempestade Kristin tenha derrubado cerca de dois milhões de metros cúbicos de pinho-bravo, equivalente a metade das necessidades anuais da indústria da fileira do pinho. Trata-se de um volume que, de um dia para o outro, passou de ativo económico a matéria orgânica vulnerável à humidade, fungos e pragas, acelerando perdas financeiras para milhares de proprietários e pressionando uma indústria já fragilizada.

Os ventos superiores a 150 km/h não derrubaram apenas árvores: expuseram fragilidades estruturais, revelaram dependências excessivas de infraestruturas críticas e agravaram a volatilidade económica local. A oferta abrupta de madeira, somada às dificuldades logísticas para a sua remoção, gerou um desequilíbrio que nem o mercado nem as empresas estavam preparados para absorver.

Perante esta magnitude, a necessidade de coordenação torna‑se evidente. Sem mecanismos rápidos e integrados, a floresta perde valor a cada dia que passa e o país perde com ela. A ausência de orientações claras, a burocracia excessiva, a falta de maquinaria e a escassez de madeireiros capazes de responder à procura, fazem com que muitos proprietários se sintam paralisados. Não se trata apenas de cortar árvores caídas, mas de evitar que um recurso económico se transforme num risco ambiental. O país precisa de medidas que facilitem a mobilidade de meios humanos e técnicos para a região centro, de incentivos à capacidade instalada e de mecanismos de articulação que ultrapassem a tradicional fragmentação do setor.

Quando a tecnologia passa a fazer parte da solução

Como consultora na área de Tecnologias de Informação (TI), não consegui desligar-me deste desafio quando regressei a Lisboa. Trouxe o tema para a empresa e encontrei alinhamento imediato: havia disponibilidade, vontade e convicção de que a tecnologia pode criar valor público em momentos críticos.

Assim nasceu a ideia de desenvolver um ecossistema digital nacional de valorização dos recursos florestais, que está a ser avaliado pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e da Floresta, cujo propósito é simples, mas estrutural: aproximar quem tem madeira no terreno de quem a pode remover e valorizar. Uma aplicação que permite registar terrenos, quantificar madeira, localizar madeireiros e estabelecer contacto direto não é apenas uma inovação tecnológica, é uma resposta ao desordenamento atual e uma ponte entre urgência e eficiência.

A visão a médio prazo vai mais longe: rastreabilidade completa, integração institucional, análise geoespacial e apoio logístico. Um sistema pensado para transformar um passivo ambiental num ativo económico sustentável e para reforçar a resiliência das nossas florestas e das comunidades que delas dependem.

Porque escrevo isto agora? Porque a urgência não é abstrata: é diária. Cada dia perdido significa madeira deteriorada, valor económico destruído e risco acrescido de incêndio no verão que se aproxima. Famílias e empresas já enfrentam as consequências económicas da tempestade e não podem aguardar por respostas lentas, fragmentadas ou insuficientes.

A Kristin passou. Reerguer a floresta e reforçar as defesas naturais do nosso território é uma missão que herdámos de gerações anteriores, como bem simbolizou D. Dinis. Assumi‑la, hoje, é promover a resiliência económica das comunidades e assegurar um futuro mais seguro e sustentável para as próximas gerações.

 

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