A consultora de recursos humanos Adecco revelou num estudo que envolveu 30 mil empresas espanholas, que o abuso de pausas diárias no trabalho pode significar um custo mínimo anual de 3.227 euros por trabalhador. Por outro lado, uma investigação levada a cabo pelo “Journal of the American Medical Association”, em colaboração com a Universidade de Washington, chegou à conclusão que, se os fumadores gastarem uma média de 4 minutos por cigarro, mais outros 4 entre sair e voltar ao seu posto de trabalho, mais 2 minutos de volta à concentração, poderá existir um prejuízo anual, para a empresa, de aproximadamente 4.382 euros por trabalhador. Números que nos fazem pensar.
Em 2017, uma empresa no Japão, convicta de que, perante esta realidade, seria importante premiar os “não-fumadores”, adotou uma medida interna de incentivo: 6 dias de férias adicionais para todos os trabalhadores que não fizessem pausas para fumar, durante o período normal de trabalho. Nos primeiros dias do ano, outra empresa – a KCJ Training and Employment Solutions – seguiu o mesmo caminho, atribuindo 4 dias de férias extra a todos aqueles que passam o dia sentados à secretária, a trabalhar. Na opinião dos empresários, estes merecem ser recompensados.
Em Espanha, a medida não reúne consenso. Segundo alguns especialistas, desde que respeitado o intervalo mínimo de 15 minutos (matéria regulada no artigo 34.4 do “Estatuto de los Trabajadores”), nada impede as empresas de conceder incentivos aos trabalhadores para parar de fumar, desde que sejam respeitados os planos de prevenção de riscos ocupacionais e a promoção de políticas de saúde ocupacional, aprovados para o efeito.
A questão torna-se inevitável: e em Portugal, seria possível adotar esta medida? Temos mais dúvidas do que certezas! Vemos com dificuldade que uma solução desta natureza tenha “pernas para andar”, desde logo porque, no nosso entender, carece de “solidez jurídica”. Todos entendemos a ideia subjacente: incentivar o aumento da produtividade. No entanto, mesmo admitindo que existem, por certo, situações de abusos e perdas evitáveis de tempo no período normal de trabalho, cremos que a solução não passa por implementar uma regulamentação que venha restringir, sem mais, estas pausas – uma vez que as mesmas podem ser importantes para garantir a motivação, a produtividade e o bem-estar dos trabalhadores, além de promoverem a integração e a socialização na empresa e, em última análise, a tão propalada “felicidade laboral”.
Estamos convictos que o problema não reside nas “pausas” laborais, mas antes em duas premissas fundamentais: a mentalidade e a falta de produtividade. Como é do conhecimento público, continuamos na cauda da Europa em termos de produtividade do trabalho por hora trabalhada, existindo antes, a necessidade de mostrar que se trabalha muitas horas. Uma questão cultural que se resume a um intrínseco “presentismo laboral”.
Posto isto, a prioridade deve passar por uma mudança de mentalidades, onde se privilegie a união de esforços que permita criar uma forte cultura empresarial, uma relação próxima com os colaboradores e, acima de tudo, que dê corpo à expressão “vestir a camisola”. Isso sim, será determinante para o cumprimento dos objetivos individuais e corporativos.