Jovem português César Rafael surpreendido por receber Prémio Europeu de Composição

O jovem compositor português César Rafael confessa ter sido “uma surpresa total” vencer o Prémio Europeu de Composição 2026, notícia que recebeu num telefonema que descreve como “um dos mais felizes” da sua vida.

Jovem português César Rafael surpreendido por receber Prémio Europeu de Composição
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O jovem compositor português César Rafael confessa ter sido “uma surpresa total” vencer o Prémio Europeu de Composição 2026, notícia que recebeu num telefonema que descreve como “um dos mais felizes” da sua vida.

A distinção foi atribuída pela obra “Saudades, só portugueses”, estreada mundialmente a 07 de agosto na Konzerthaus Berlin, pela Jovem Orquestra Portuguesa (JOP), no âmbito do festival Young Euro Classic. O prémio foi anunciado durante o concerto de encerramento do festival.

A obra surgiu a partir do tema levado pela JOP ao festival e proposto pelo maestro Pedro Carneiro.

A escolha da saudade aconteceu de imediato, também pela vontade de apresentar a um público internacional um conceito associado à cultura portuguesa.

“Achei que seria desafiante compor sobre um tema assim”, explicou o compositor, que procurou divulgar a saudade “na minha própria linguagem musical e da melhor forma que consigo, junto de um público a quem este conceito é desconhecido”.

O título da obra estabelece uma relação com Fernando Pessoa e com “Mensagem”. A composição acompanha a transformação do sentimento, desde a despedida até ao momento em que a saudade se aproxima da nostalgia.

“Tendo como pano de fundo a ‘Mensagem’ de Pessoa e a exaltação da era dos Descobrimentos, a música traduz a saudade de um tempo que, tal como Pessoa, o compositor nunca viveu”, explicou César Rafael, em declarações à agência Lusa.

A peça procura ainda olhar para quem fica em terra perante a partida de alguém para o desconhecido. É, segundo o compositor, “um olhar de empatia para com aqueles que, outrora, ficaram em terra a ver os seus partirem rumo ao desconhecido ‘por mares nunca de antes navegados’”.

Transformar a saudade em música foi um dos principais desafios da composição. César Rafael desenvolveu uma narrativa dramática para acompanhar a despedida e a transformação do sentimento, cruzando diferentes ambientes sonoros.

“Desde o início, apresenta-nos o mar como ambiente sonoro e vai explorando melodias que traduzem despedidas, as quais se transformam em revolta e desespero”, descreveu.

Ouvir a obra pela primeira vez na Konzerthaus Berlin foi, para César Rafael, “extraordinário”. A acústica da sala e a interpretação da JOP contribuíram para uma experiência que descreveu como simultaneamente assustadora e jubilosa.

“A JOP deu uma vida à peça de uma forma que nunca tinha imaginado”, sublinhou.

O concerto terminou com uma ovação de pé, perante uma sala cheia. Para o compositor, o momento representou “um sentimento de missão cumprida”, depois de meses de trabalho.

“Algo que tento ter sempre em mente no ato de composição é que a música será tocada para o público, desfrutada pelo público”, revelou, acrescentando que “ver a sala inteira de pé foi a prova viva de que esse cuidado valeu a pena.”

A distinção europeia surge depois de César Rafael ter vencido também o Concurso Jovem Compositor da JOP, na temporada 2025/26. O compositor considera que os dois reconhecimentos ajudam a validar um percurso desenvolvido numa área que enfrenta limitações em Portugal.

“É difícil em Portugal, por vezes, sentir-se validado nesta área”, admitiu, apontando para a dimensão reduzida da área da composição e para a escassez de oportunidades para ouvir e apresentar novas obras.

“Nem sempre temos a oportunidade de ouvir o nosso trabalho e podemos sentir-nos sozinhos e o nosso trabalho desconhecido”, acrescentou. Por isso, as duas distinções representam “uma grande força de motivação e de validação” da qualidade, do esforço e do trabalho que tem desenvolvido.

Nascido em Vila Real em 2001, César Rafael iniciou os estudos musicais no Conservatório Regional de Vila Real, em trompete, antes de desenvolver o interesse pela composição na ESPROARTE, em Mirandela. Em 2020, ingressou na Universidade de Évora, onde estudou composição com Christopher Bochmann, Hugo Ribeiro e Pedro Amaral. Concluiu o mestrado em Ensino de Música em 2025.

O próximo trabalho do compositor a ser apresentado será “The View from Halfway Down”, para saxofone solo e orquestra, interpretado por Mário Marques e pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob direção do maestro Pedro Amaral, em 25 de outubro, em Alcobaça.

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