Constança Cunha e Sá, 67 anos, jornalista, antiga diretora de O Independente, uma das vozes mais influentes da imprensa portuguesa da década de 90, início do novo milénio, morreu esta terça-feira, 2 de dezembro, em Lisboa, vítima de cancro.
Culta, superiormente inteligente, perspicaz, mordaz, foi jornalista “inteira”. Escrevia primorosamente. Notabilizou-se na análise política, que praticou com grande independência, na entrevista em que era exímia e na crónica, em que foi … sublime.
“Sim, eu gosto de desarmar um político, gosto de desarmar a propaganda política criada à sua volta. Para mim, uma entrevista serve para esclarecer as pessoas”, confessou em tempos à Notícias TV, admitindo ver a “entrevista como um jogo”.
Constança Cunha e Sá nasceu em 23 de agosto de 1958, em Lisboa, formou-se em Filosofia na Universidade Católica e foi professora do ensino secundário antes de abraçar o jornalismo aos 29 anos, integrando a primeira geração da revista Sábado, dirigida por Joaquim Letria.
Tornou-se um vulto do jornalismo n’ O Independente, o mítico semanário fundado por Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso, que fechou em 2006. Primeiro, foi diretora-adjunta, e, depois, diretora, função que assumiu em 1996, na sequência do curto consulado de Isaías Gomes Teixeira, que sucedeu a Portas, quando este trocou o jornalismo pela política. Reestruturou o jornal, onde a irreverência era a norma, e tentou dar-lhe uma segunda vida. Estivemos com ela nesse desígnio.
Ainda nos jornais, trabalhou como redatora principal do Diário Económico. Na imprensa manteve presença regular ao longo da vida, escrevendo no jornal i a coluna “Feira da Ladra”, e colaborando com o Jornal de Negócios, o Correio da Manhã e Público.
A segunda fase da sua vida profissional foi na televisão, onde se tornou uma reputada comentarista e opinion maker. Na TVI assumiu a editoria de Política e na TVI24 destacou-se como moderadora do programa “A Prova dos 9”. Deixou a estação em 2020, regressando em 2021 como analista política.
Esta terça-feira, as reações à sua morte vieram de todos os quadrantes. Marcelo Rebelo de Sousa, em texto publicado no site da Presidência da República, elogia a “figura singular do jornalismo português, cujo percurso profissional e humano deixa uma memória indelével em todos quantos com ela tiveram o privilégio de trabalhar e de privar”. Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, considera que “nela encarnou o escrúpulo jornalístico” e escreve na rede social X: “Amava a vida em e com todas as contradições. Humana, demasiado humana para o nosso tempo – o tempo da artificial inteligência” e despede-se com um “Adeus, Constança”.
Carlos Guimarães Pinto descreve-a, também no X, como “uma pessoa intelectualmente estimulante, daquelas raras em qualquer área política”, contando que com ela conseguiu “manter discussões interessantes e construtivas em privado, longe da violência da discussão pública”. Já o historiador Rui Tavares, deputado do Livre, destaca a a sua participação “no debate público com vivacidade, de forma empenhada e estimulante”.
Amante dos livros e da leitura, apreciadora de música clássica, fumadora inveterada, Constança foi casada com Simon Peter Stilwell, pai do seu filho Miguel, Vasco Pulido Valente, duas vezes, e António Ribeiro Ferreira, jornalista e antigo chefe de redação de O Independente falecido em 2022.
Foi justamente no velório do “ARF”, como lhe chamávamos, no dia 30 de junho, na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, que a autora destas linhas, e a sua antiga diretora deram o derradeiro abraço.