Apelidado de ‘teatro dos sonhos’, o estádio de Old Trafford, onde atua o Manchester United tornou-se um pesadelo para Ruben Amorim. O comboio que passa apenas uma vez vida, expressão utilizada pelo técnico, dias antes de deixar o Sporting CP, em novembro de 2024, descarrilou 14 meses depois e nem um investimento próximo dos 500 milhões de euros salvou o português de ser mais um a fazer parte do cemitério de treinadores, em que se tornou o emblema inglês, desde a saída de Sir Alex Ferguson em 2013.
A decisão foi tomada “relutantemente” pela direção do Manchester United na manhã de segunda-feira,5 de janeiro, sendo anunciada em comunicado como “o momento certo para fazer mudanças”, numa altura em que o clube ocupa o sexto lugar na Premier League, apenas a três pontos do acesso à Champions.
Um progresso significativo depois de um 15º lugar na última temporada, onde o técnico até conseguiu levar o emblema inglês à final da Liga Europa, tendo saído derrotado frente ao Tottenham.
O registo de 63 jogos oficiais com 25 vitórias, 23 derrotas e 15 empates espelham bem o insucesso desportivo de Amorim, que o colocam como um dos piores treinadores da história dos ‘red devils’ nos últimos 40 anos.
Apesar das dificuldades financeiras assumidas pela estrutura do Manchester United, o clube investiu 500 milhões de euros durante a permanência do técnico nestes 14 meses. Desta verba, quase metade foi gasta esta temporada na chegada de três jogadores para a frente de ataque: Benjamin Sesko (76 milhões), Bryan Mbeumo (75 milhões) e Matheus Cunha (74 milhões). O problema é que entre si, têm até ao momento, 11 golos marcados, muito pouco para quem custou tanto dinheiro.
Nem manager, nem coach
Perante todo este cenário seria de esperar que a vertente desportiva fosse a principal causa para o despedimento de Ruben Amorim, só que não. Na base desta decisão estará, segundo a imprensa inglesa, a conferência de imprensa do último sábado feita pelo técnico português, após o empate com o Leeds United, onde deixou várias críticas a comentadores e jornalistas.
No entanto, o principal alvo acabou por ser o diretor de futebol do United, Jason Wilcox, com quem alegadamente mantinha divergências sobre a política de contratações e a recusa de Amorim em mudar o sistema tático da equipa, mas também o diretor executivo do clube, Omar Berrada.
“Eu vim para ser o manager do Manchester United, não para ser treinador. Isso é claro. Eu sei que o meu nome não é [António] Conte, [José] Mourinho ou [Thomas] Tuchel, mas sou o manager do Manchester United e assim vou continuar por mais 18 meses ou até quando a direção decidir mudar. Não vou desistir. Vou fazer o meu trabalho até que outra pessoa ocupe o meu lugar. Todos os departamentos precisam de fazer o seu trabalho”, afirmou Ruben Amorim.
Fantasma de Sir Alex Ferguson fez nova vítima e nem Mourinho escapou
Figura maior do Manchester United, Sir Alex Ferguson continua a ser presença assídua dentro e fora do estádio (através da sua estátua), ao mesmo tempo, que qual fantasma assombra todos aqueles que lhe sucederam como treinador. Um cargo que deixou em 2013, ano em que o United conquistou pela última vez a Premier League.
Ruben Amorim tornou-se o 10º treinador a passar pelo banco de Old Trafford, nos últimos 13 anos, embora três deles de forma interina. Neste período, curiosamente foi um outro português que acabou por dar o título de maior relevo ao Manchester United. Falamos de José Mourinho, que em 2016 conquistou a Liga Europa, ao vencer na final o Ajax treinado por Erik ten Hag, a quem Amorim haveria de suceder, no comando dos ‘red devils’.
Contudo, nem o segundo lugar no campeonato evitou a saída de José Mourinho em meados de dezembro de 2018. Depois de Ruben Amorim segue-se agora Darren Fletcher, antigo jogador do clube e atual treinador dos sub-18. Uma solução ao que tudo indica de transição, enquanto o clube procura um novo técnico.
Do “bom treinador a três anos”, passaram três meses
É certo e sabido que quando um treinador recebe um voto de confiança, por norma acaba por ser despedido. A história do futebol assim o diz, e se em Portugal este cenário se precipita em poucas semanas, no caso de Ruben Amorim no Manchester United, foi-lhe dado três meses. Foi em outubro de 2024, que o co-proprietário do clube e CEO da Ineos, Sir Jim Ratcliffe, veio a público defender o treinador português das críticas feitas pela imprensa desportiva inglesa aos maus resultados do Manchester United.
“Não teve a melhor das temporadas, mas precisa de demonstrar que é um bom treinador a três anos. Às vezes não compreendo a imprensa. Querem que o Ruben tenha sucesso do dia para a noite. Pensam que é como um interruptor. Que carregam no interruptor e são tudo rosas”, afirmou.
Como tal, não se pode dizer que a paciência seja uma das virtudes do engenheiro químico e bilionário inglês, dado que caminha para o quarto treinador em apenas dois anos de liderança no Manchester United (Erik ten Hag, Ruud van Nistelrooy, Ruben Amorim e agora Darren Fletcher).
Um padrão que é aplicado ao clube de futebol francês, OGC Nice, também ele propriedade de Sir Jim Ratcliffe desde há seis anos, período onde já teve oito treinadores, com a particularidade de nenhum ter feito duas temporadas completas.
Que futuro para Amorim?
Apesar de despedido pela primeira vez na sua carreira, o contrato de Ruben Amorim com o Manchester United continuará, segundo a imprensa desportiva, em vigor até junho de 2027 ou até que encontre um novo clube.
Deste modo, resta saber o que fará agora o treinador português. Uma pausa sabática até ao final da temporada para escolher o próximo clube é apontada pela imprensa desportiva como a decisão mais provável.
Mesmo com o insucesso desportivo no Manchester United, o mercado inglês poderá ser uma hipótese para o técnico, numa tentativa de provar aos responsáveis dos ‘red devils’ que tomaram a decisão errada.
Um regresso ao futebol português que surgiu por altura das eleições do SL Benfica, parece estar fora de hipóteses e dependeria sempre dos resultados desportivos.
As ligações familiares a Antero Henriques poderão abrir portas para outras ligas europeias, mas também árabes. Cabe a Ruben Amorim decidir.