Este é um debate necessário e que finalmente ganha visibilidade: até que ponto é eficaz e socialmente justo que os bancos centrais continuem a subir as taxas de juro para combater uma inflação que já se está a dissipar e cujas causas são discutíveis?
No entanto, o debate está a tomar um rumo inesperado. Ao contrário do que os bancos centrais têm defendido, organizações supranacionais como o FMI e o Banco de Compensações Internacionais consideram que a política fiscal deve assumir a responsabilidade pela última fase da luta contra a inflação, através de subsídios direcionados e do aumento de impostos para as famílias com rendimentos mais altos.
A estratégia baseia-se na convicção de que a inflação resulta de um “excesso de procura” – algo que é muito discutível. Argumentam também que os inquéritos ao consumo nos EUA mostram que as famílias que estão nos 30% que mais ganham, consomem mais em bens e serviços do que os restantes 70%. Portanto, o argumento é que subir os juros afeta todos por igual e que a procura deve ser arrefecida através do aumento de impostos para aqueles que ganham mais.
Tenho as maiores reservas em relação a esta posição. Desde logo porque esta inflação não resulta de “excesso de procura”, mas de constrangimentos na oferta, perceções de escassez, mudanças de comportamentos e aumento das margens. E se existem receios justificados de que os salários possam aumentar e assim autoalimentar o ciclo inflacionista, subir impostos para aqueles que ganham provavelmente implicará uma maior exigência de aumentos salariais por parte daqueles que certamente têm mais poder de negociação no mercado de trabalho.