Indústria aeroespacial próxima de entrar em crise de matérias-primas

A China controla 90% do fornecimento de ímãs e, juntamente com a Rússia, metade do titânio de alta pureza, essencial para os setores da defesa e aeroespacial. Ou alguém não fez as contas ou fê-las tarde demais: afinal, todos sabiam onde estão as matérias-primas.

Indústria aeroespacial próxima de entrar em crise de matérias-primas
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Cerca de 80% das empresas aeroespaciais consideram que há risco de escassez de matérias-primas críticas, segundo um relatório recente da consultora Roland Berger. Especificamente, as empresas preveem um défice de metais como titânio, aço e cobre, além de terras raras e ímãs. Em menor grau, também há receios em relação a outros produtos, como componentes elétricos, semicondutores e fixadores.

“As empresas já estão a enfrentar escassez desses materiais devido à situação geopolítica e ao aumento da procura devido ao crescimento da atividade nos setores aeroespacial comercial, militar e outros”, explica Pol Busquets, sócio da Roland Berger. Além da falta de materiais, outro problema é a distribuição: o relatório destaca que o surgimento da inteligência artificial desencadeou uma nova corrida a determinados materiais, já que a necessidade de fornecer turbinas a gás industriais nos data centers aumentou a concorrência nos materiais usados em motores aeronáuticos, especificamente no que diz respeito à fundição de pás e pás de turbina.

Perante este cenário, um leigo seria levado a ponderar a pergunta básica: será que ninguém se lembrou disto antes? Quando os Estados Unidos produziram a sua mais recente teoria estratégica de divisão do mundo e insistiu com a Europa para que a aceitasse e a seguisse, todos perceberam que uma enorme quantidade de matérias—primas essenciais ficavam do lado do ‘inimigo’.

Para tentar fazer face a este mais que previsível cenário, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convidou os países que de algum modo não faziam parte de nenhum dos blocos – essencialmente o sul global e alguns Estados asiáticos – para fazerem parte de um grupo que agregasse o restante destes materiais. Mas o grupo está excessivamente sujeito a movimentações regionais e a sua estabilidade será, segundo os analistas, um problema sempre presente.

Paralelamente, Trump lançou a chamada Declaração Pax Silica, assinada, entre outro, pelos próprios Estados Unidos, Austrália, Japão, Coreia do Sul, Singapura, Israel e Reino Unido. Mas, como chamam a atenção os críticos, a geografia não vai mudar e o que está no solo chinês e russo vai lá permanecer – a não ser que alguém crie uma guerra para se apossar desses lugares.

Perante este cenário, tanto a União Europeia como a NATO tomaram medidas para definir as prioridades dos materiais mais críticos para a resiliência industrial e de defesa. O quadro da União sobre matérias-primas críticas identifica 34 substâncias que combinam alta importância económica com alto risco do lado da oferta. A NATO, por sua vez, adotou uma abordagem mais direcionada e publicou em 2024 uma lista de 12 grupos de matérias-primas críticas para defesa, essenciais para a prontidão militar e vantagem tecnológica. Incluem titânio, terras raras e outros materiais e substâncias difíceis de substituir e cuja cadeia de fornecimento está fortemente concentrada em países não aliados.

No caso do titânio, cerca de metade da esponja de titânio de alta pureza do mundo vem da China e da Rússia, segundo outro relatório da Roland Berger sobre materiais críticos. O país asiático controla, sozinho, entre 65% e 70% da produção global. A consultora estima que a procura por titânio para defesa e aeroespacial atingirá entre 600 e 700 quilotoneladas nos próximos dez anos, e alerta que uma lacuna acumulada de oferta de 100 mil toneladas surgirá na próxima década se a produção fora da China e da Rússia não acelerar drasticamente.

Além disso, a capacidade de fabricação de fundições estruturais de titânio no Ocidente atingirá o pico entre 2027 e 2028, e a partir desse momento, se a procura continuar a aumentar, não haverá máquinas suficientes para fabricá-las. Apesar dos esforços para a independência face a estes materiais, os programas ocidentais de motores e estruturas ainda têm 20% de exposição a componentes forjados de origem russa. O relatório enfatiza que, para o titânio, a substituição por outros materiais é “amplamente inviável”, pois substituí-lo penaliza o peso e o consumo de combustível das aeronaves, e qualquer modificação de um material crítico exige a recertificação de toda a plataforma, um processo que pode levar anos e custar milhões.

Quanto às terras raras, a China controla aproximadamente 90% de toda a cadeia de valor dos ímãs – processamento, refinação e fabricação. Enquanto um drone pequeno precisa de apenas alguns gramas dessas terras raras, uma aeronave comercial ou militar pode incorporar dezenas de quilos. O problema é que a capacidade de produção de terras raras fora da China é quase inteiramente voltada para ímãs para automóveis elétricos e turbinas eólicas; o setor aeroespacial corre o risco de ficar fora do mercado, a menos que os governos garantam volumes específicos ou as empresas paguem prémios altíssimos para garantir o acesso.

Dentro deste grupo, neodímio e praseodímio (NdPr) são os elementos mais críticos para ímãs em motores elétricos, e já desencadearam uma verdadeira guerra de preços. Nos Estados Unidos, refere um estudo citado pelo jornal ‘El Economista’, o Departamento de Defesa assinou um acordo com a produtora MP Materials que estabelece um preço mínimo de 110 dólares por quilograma para produtos NdPr, e também garante que 100% da produção de ímãs de uma nova fábrica seja destinada a clientes de defesa e comerciais por dez anos. É uma medida com a qual Washington tenta garantir que o setor aeroespacial não perca a vantagem para a indústria de carros elétricos.

“Desde 2023, mais de 60 mil milhões de dólares – por meio de acordos de fusões e aquisições – foram investidos em matérias-primas essenciais para os setores aeroespacial e de defesa fora da China, refletindo um crescente esforço para fortalecer as cadeias de suprimentos ocidentais. No mesmo período, o total de financiamento público comprometido na Europa e nos Estados Unidos também chegou a dezenas de biliões de dólares, destacando a importância relativa de ambas as fontes de investimento. No entanto, vale ressaltar que todo esse investimento beneficiará diversos setores industriais e que apenas uma fração da produção de materiais ‘segurados’ irá para os setores aeroespacial e de defesa; espera-se que esse setor exija investimentos de bilhões de dólares para garantir o fornecimento de cada um dos materiais”, revela o relatório de Roland Berger.

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