Não é fácil ficar imune ao alvoroço que tomou conta da Câmara dos Comuns nos últimos dias. A experiência democrática britânica é apaixonante e muito temos todos a aprender com ela.
Malgrado os discursos inflamados, aqui e ali quase apocalípticos, a agitação actual reflecte a importância e a solenidade do momento: aquele em que os representantes do povo são chamados a votar um acordo que afectará a vida da comunidade de forma inelutável nos anos por vir. Acordo esse que pretende implementar uma decisão soberana do povo, a qual tem como contraponto histórico o momento em que esse mesmo povo, nos mesmos moldes, manifestou a vontade de aí permanecer.
Acontece que, espante-se, o processo de desintegração europeia é mais complexo que o da integração. Começar é mais fácil que terminar. Enquanto ali se espera, se acredita, se investe; aqui, se desespera, se desconfia, se esmorece. A separação, tal como a união, não pode deixar de se entender sobretudo por aquilo que primeiramente é: um processo, um caminho. Como tal, é feita de avanços e recuos, pausas e intervalos. Requer forças, lucidez, tempo.
Certamente, por isso, os Estados-Membros estabeleceram nos Tratados o prazo (indicativo) de dois anos para negociar os termos da saída. E certamente também por isso assumiram que poderia ser necessário estender este prazo quando as partes nisso assentissem unanimemente. Cientes de que quanto mais acauteladas estivessem as dificuldades que se podem antever, melhor preparado se estará para as que inevitavelmente escaparão a qualquer antevisão.
E reconheça-se, com justiça, a complexidade do processo negocial em causa. Alcançado um entendimento quanto aos pontos tidos por fundamentais, as negociações fazem-se pelo meio, entre linhas verdes e vermelhas, aí onde alegadamente reside a virtude. Acontece que, como bem dizem os ingleses, “the devil is in the detail”, e quando se trata de divisar soluções concretas para consensos difíceis, as premissas de que se partiu podem rapidamente ser postas em causa.
Não deve, assim, constituir surpresa que tenha efectivamente chegado esse momento prenunciado: aquele em que, apesar de todos os esforços, é preciso mais tempo. Não tendo o Reino Unido viabilizado o acordo de saída, não resta senão concretizar o que se adivinhou. Prorroguem-se então os prazos. Todos: o de saída, o de transição, o de negociação. Pois que, se o tempo urge, urge mais tê-lo em mãos. É que, como bem ensinava Sófocles, só ele “vê, escuta e revela tudo”.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.