O Grupo de Astana (cidade que sucede ser a capital do Cazaquistão) lidera desde 2017 as negociações entre as partes interessadas para encontrarem uma solução para a guerra na Síria (2011) – e numa altura em que foram conseguidos diversos desenvolvimentos, o governo daquele país surpreendeu todos os seus parceiros ao anunciar que se retira do grupo.
A decisão do Cazaquistão não era esperada, mas o governo afirma que, uma vez que foram atingidos os objetivos, já não considera pertinente a sua participação. O país, uma ex-república soviética, vai assim deixar de acolher conversações destinadas a resolver o conflito, tendo anunciado a decisão precisamente no final da 20ª ronda de negociações realizada na sua capital – a mesma cidade onde desde 2017 e salvo algumas exceções, decorreram as rondas anteriores.
O Ministério das Relações Exteriores do Cazaquistão disse que as negociações cumpriram a sua missão e “os objetivos iniciais, incluindo a criação de zonas de desanuviamento, o fim do derramamento de sangue e acabar com o número de vítimas foram totalmente implementados”.
O porta-voz do ministério, Aibek Smadiyarov, disse, citado pelas agências de notícias, que o recente regresso da Síria à Liga Árabe e os esforços para restaurar os laços com a Turquia são as provas de que as negociações de Astana alcançaram os seus propósitos.
Citado pelas mesmas fontes, Alexander Lavrentyev, enviado do presidente russo Vladimir Putin à Síria – a Rússia foi desde sempre o principal interveniente, tendo insistido para que os países ocidentais ficassem fora do grupo – disse que a decisão do Cazaquistão foi uma completa surpresa. “A decisão do Ministério das Relações Exteriores do Cazaquistão foi inesperada”.
Nesse contexto, não há ainda nenhuma decisão sobre o local para futuras negociações, mas acrescentou que elas podem ser realizadas em Moscovo, Teerão ou mesmo Damasco no segundo semestre do ano. De qualquer modo, as declarações implicam que o resto do grupo não acompanha o Cazaquistão e considera que as negociações devem continuar.
Para além da Rússia, Turquia e Irão (e em parte também o país anfitrião) representantes da ONU e dos países vizinhos da Síria, Jordânia, Líbano e Iraque, participaram nas negociações de Astana como observadores. Um comunicado conjunto do trio que lidera o grupo adiantava que a última ronda em Astana foi “construtiva” e debateu “o progresso na preparação do plano para a restauração das relações entre a Turquia e a Síria”. Todos se manifestaram também favoráveis à reintegração da Síria na Liga Árabe.
Rússia e Irão estiveram ao lado do regime de Bashar al-Assad, tendo mesmo servido de esteio a que o presidente recuperasse o controlo do país. Moscovo manteve uma importante posição militar na Síria. Do seu lado, a Turquia esteve sempre do outro lado, mantendo um contingente do exército no noroeste da Síria, que apoia combatentes da oposição num enclave não controlado pelo regime. Mesmo assim, tem feito aproximações a al-Assad – apesar de não tão rapidamente como queria.
Recorde-se que há algumas semanas o presidente sírio recusou avançar para a concretização de um encontro formal com o seu homólogo turco, Recep Erdogan, por considerar que ainda não estão reunidas condições para esse passo. De qualquer modo, o ministro adjunto das Relações Exteriores da Síria, Ayman Sousan, disse esta terça-feira que a Turquia deve apresentar um “cronograma claro” para a retirada das suas forças da Síria. Face ao problema curdo – os curdos estiveram muito ativos no combate ao regime de al-Assad – Ancara não deverá ter grande pressa em aceitar a sugestão síria.