França: ‘estado de graça’ entre primeiro-ministro e os socialistas ameaçado

Depois de terem servido de suporte ao segundo governo de Sébastien Lecornu, os socialistas ameaçam agora o executivo, alegando que não estão a ser cumpridas as promessas em torno do imposto sobre os ultra-ricos.

França: ‘estado de graça’ entre primeiro-ministro e os socialistas ameaçado
epa12457301 French Prime Minister Sebastien Lecornu listens to speeches prior to a no-confidence vote against his government at the French National Assembly in Paris, France, 16 October 2025. EPA/YOAN VALAT

Os socialistas franceses ameaçaram derrubar o governo até segunda-feira se as condições exigidas no Orçamento para 2026 não forem atendidas, nomeadamente no que tem a ver com o novo imposto sobre as grandes fortunas. O partido Socialista francês impôs como uma das condições para não avançar com uma moção de censura – nem votar favoravelmente nenhuma das duas que a extrema-direita e a extrema-esquerda tinham em vista – que o segundo executivo liderado por Sébastien Lecornu criasse um imposto específico sobre as grandes fortunas (acima dos 100 milhões de euros de ativos) e sobre as grandes empresas (acima dos mil milhões de faturação). Mas o governo está relutante, uma vez que, para além de estes dois universos terem evidentes vasos comunicantes, os dois impostos são uma forma de a economia levantar sérias reservas a fazer a sua parte no processo de recuperação, essencial para o país.

“Fizemos um esforço para não censurar o primeiro-ministro, mas até agora não vimos nenhum sinal de disposição para fazer concessões”, disse o líder do Partido Socialista, Olivier Faure. “Se não houver mudanças até segunda-feira, está tudo acabado”. Dada a aritmética tripartida do Parlamento, os socialistas têm o poder de derrubar o fraco governo minoritário de Sébastien Lecornu.

Faure, cujo partido há muito defende um imposto sobre os muito ricos, afirmou que as propostas para o Orçamento oneram “injustamente” reformados, jovens e famílias. “É insuportável. Não podemos pedir a esses segmentos da população – pessoas da classe trabalhadora e da classe média – que continuem a fazer sacrifícios enquanto os mais ricos não contribuem”, disse, acrescentando que o orçamento deve ter como objetivo encontrar entre 15 e 20 mil milhões de euros em receita adicional. Lecornu quer ir mais longe ainda: uma poupança de 30 mil milhões – ainda assim abaixo dos 44 mil milhões previstos pelo anterior governo de François Bayrou – para reduzir o défice para 4,7% do produto.

A ameaça de mais instabilidade é preocupante para a economia da França, com a atividade empresarial francesa a cair mais rapidamente que o esperado em outubro, de acordo com dados divulgados esta sexta-feira. A Moody’s pode, também esta sexta-feira, baixar a notação para a dívida francesa – seguindo assim o que já foi feito pela S&P Global. Uma votação sobre a parte da receita do Orçamento está marcada para a primeira semana de novembro.

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