França: eleições locais revelam um país a derivar para os extremos

Tanto a extrema-esquerda como a extrema-direita tiveram um bom desempenho na primeira volta. O tempo é agora, para os municípios que não ficaram resolvidos este domingo, de realinhamentos estratégicos, alguns deles de difícil conclusão. Em Paris, o França Insubmissa está à espera de um telefonema dos socialistas.

França: eleições locais revelam um país a derivar para os extremos
Paris FRança

Tanto a extrema-esquerda do França Insubmissa como a extrema-direita do Rassemblement National tiveram um bom desempenho na primeira volta das eleições municipais francesas este domingo, dando indícios de que os gauleses estão a extremar as suas posições políticas – o que não é propriamente uma novidade em França – e a castigar o facto de o centro, ‘macronista’ ou não, demostrar pouca eficácia em conseguir encontrar um rumo para o país em termos de governo central. A segunda volta é já no próximo domingo.

O tema é fundamental não apenas para o município, mas também para cada partido perceber o que pode valer na corrida presidencial de 2027 – que verdadeiramente é aquilo em que todos os franceses já estão a pensar, num contexto em que Emmanuel Macron chega ao fim definitivo dos seus mandatos à frente do Palácio do Eliseu.

Em várias grandes cidades, a primeira volta não foi suficiente para encontrar uma candidatura vencedora – pelo que o tempo é agora de formação de alianças. Neste quadro, é difícil encontrar um modus operandi geral: há cidades onde a esquerda moderada (socialistas e Verdes) nada quer ter a ver com o França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, outras em que está pronta uma aliança entre ambos, e lugares onde as várias extremas-direitas também não conseguem estar alinhadas entre si. Os candidatos com menos votos estão a esforçar-se para formarem alianças que podem alterar drasticamente os resultados na segunda volta, como acontece com muita frequência – tanto ao nível das municipais, como das eleições gerais. As chamadas ‘alianças negativas’ fazem sempre assinalável mossa em França.

O Rassemblement National obteve bons resultados, mas não alcançou a vitória esmagadora que antecipava no sul do país, um de seus redutos regionais. Em cidades-chave como Marselha e Toulon enfrentará disputas acirradas na segunda volta. Mesmo assim, vários de seus candidatos conquistaram mais de 40% dos votos, o que é um bom indicador para o que se segue.

O atual prefeito e vice-presidente do Rassemblement, Louis Aliot, foi reeleito com maioria absoluta em Perpignan, no sul do país, a única grande cidade governada pelo partido. Mas em Toulon a sua candidata, a deputada Laure Lavalette, uma das principais aliadas de Le Pen, terá de enfrentar uma batalha difícil na segunda volta. Ainda assim, a extrema-direita está a ganhar terreno de forma significativa nos centros urbanos, que há muito são bastiões do centro-direita e do centro-esquerda.

O exemplo mais claro é Marselha, a segunda maior cidade da França, onde o candidato do Rassemblement, Franck Allisio, está praticamente empatado com o atual prefeito, Benoît Payan, que conta com o apoio de vários partidos moderados de esquerda. O candidato de esquerda, que também se classificou para a segunda volta, sugere uma aliança com Payan para impedir a entrada da extrema-direita.

“Estes resultados revelam uma expectativa que sabemos ser imensa”, disse o presidente dos extremistas, Jordan Bardella, minutos após o encerramento das urnas. “A mudança não vai esperar até 2027 — ela começa este domingo”, acrescentou.

No outro extremo do espectro político, o França Insubmissa teve um desempenho melhor que o esperado em diversas cidades do nordeste, como Lille e Roubaix, confirmando o seu estatuto como figura-chave para as eleições presidenciais do ano que vem. O bom desempenho dos seus candidatos será uma dor de cabeça para a esquerda moderada, socialistas e verdes, que se mostra cautelosa com alianças com o ‘tóxico’ Mélenchon.

Os aliados do presidente Emmanuel Macron estão sob pressão em todo o país, onde os candidatos de centro-direita têm dificuldades para manter ou vencer nas grandes cidades e em derrotar os extremos. Um exemplo disso é Nice, onde Eric Ciotti, aliado de Le Pen, obteve mais de 40% dos votos, segundo as primeiras estimativas, tornando-se o favorito para a segunda volta contra o atual prefeito Christian Estrosi, que conta com o apoio de partidos do centro. Ciotti foi presidente do partido de Os Republicanos de 2022 a 2024, mas foi deposto pelo próprio partido num golpe dramático após fechar um acordo com o Rassemblement National sem a aprovação dos seus correligionários.

O ex-primeiro-ministro Edouard Philippe passou por um susto depois que as sondagens o colocarem praticamente empatado com o seu oponente comunista, mas o favorito centrista para as presidenciais de 2027 está confortavelmente à frente. Philippe, que já declarou a sua candidatura para 2027 (foi o primeiro a fazê-lo), afirmou que desistiria da candidatura caso perdesse a eleição para prefeito na Normandia, colocando o seu futuro político em risco.

O França Insubmissa teve um desempenho melhor do que o esperado em cidades-chave, um resultado que aumentará o desconforto da esquerda moderada antes das presidenciais de 2027. O principal exemplo é a cidade de Lille, no norte da França, onde o seu candidato está empatado com o atual prefeito de centro-esquerda. E também está a caminho de ficar em primeiro lugar em Roubaix, uma cidade populosa e operária nos arredores de Lille.

Este cenário político fragmentado está a causar o pânico entre os moderados, especialmente na esquerda, onde as disputas internas são cada vez mais evidentes: está dividida sobre a possibilidade de formar alianças improvisadas com o movimento de extrema-esquerda. “Não vamos conseguir reverter a onda da extrema-direita com Jean-Luc Mélenchon como nosso bode expiatório”, disse no domingo Raphaël Glucksmann, figura proeminente do partido social-democrata Place Publique. Mas essa posição colocou-o em desacordo com a líder dos Verdes, Marine Tondelier, que abriu caminho para alianças com a esquerda radical. “Vejo menos diferenças entre os esquerdistas do que entre a esquerda e a direita”, disse.

Embora o Partido Socialista tenha virado as costas para Mélenchon ao nível nacional, a matemática eleitoral pode forçar alguns candidatos a repensarem as suas estratégias em nível local. Em importantes centros urbanos como Nantes, Rennes, Marselha e até mesmo Paris, o caminho para a vitória pode envolver um acordo com os candidatos do França Insubmissa — todos eles classificados para a segunda volta. Noutras cidades, como Limoges e Toulouse, a esquerda tem hipótese de destituir a direita no poder — mas os candidatos do França Insubmissa estão à frente dos socialistas.

Finalmente, os socialistas podem olhar para Paris com alguma dose de otimismo. O seu candidato, Emmanuel Grégoire, ficou em primeiro lugar com uma margem confortável, tal como indicavam as sondagens, à frente da sua rival de centro-direita, Rachida Dati. Mas a sua vitória não está garantida sem os votos da extrema-esquerda na segunda volta. Sophia Chikirou, do França Insubmissa, lançou o desafio: “aguardo um telefonema”.

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