Estudo da CUF alerta para baixa adesão a rastreios e falta de apoio real a mulheres trabalhadoras

Entre as principais conclusões, o estudo destaca que, embora 74% das mulheres afirmem ter flexibilidade laboral para consultas, apenas 26% podem ausentar-se sem necessidade de justificação formal ou recuperação de horas. A burocracia profissional surge assim como um dos principais entraves ao autocuidado.

Estudo da CUF alerta para baixa adesão a rastreios e falta de apoio real a mulheres trabalhadoras
medicos consultas

Um estudo sobre hábitos de saúde de mais de 2.500 mulheres inseridas no mercado de trabalho revela um contraste entre a flexibilidade laboral teórica e os entraves práticos que condicionam o acesso a consultas e rastreios, com especial impacto nas chamadas “Geração Sanduíche” e “Mulheres 360º”.

A investigação, promovida pela CUF Oncologia em colaboração com o VOH CoLAB – Value for Health CoLAB, associação privada sem fins lucrativos focada em Saúde Baseada em Valor, será apresentada hoje às 10h00 no Auditório do Museu de Serralves, no Porto. A sessão conta com a presença de várias executivas, entre as quais Vera Pinto Pereira, administradora executiva da EDP, e Paula Brito Silva, administradora executiva da CUF.

Entre as principais conclusões, o estudo destaca que, embora 74% das mulheres afirmem ter flexibilidade laboral para consultas, apenas 26% podem ausentar-se sem necessidade de justificação formal ou recuperação de horas. A burocracia profissional surge assim como um dos principais entraves ao autocuidado.

O relatório identifica ainda um cenário de “isolamento logístico” na faixa etária dos 45 aos 54 anos, correspondente à “Geração Sanduíche”, que acumula o cuidado de filhos e ascendentes. Neste grupo, menos de metade das mulheres com dois ou mais dependentes afirma ter o apoio prático necessário para gerir a sua própria saúde.

De acordo com o estudo, 58% das inquiridas acumulam funções profissionais com o cuidado de dependentes, resultando numa inversão de prioridades clínicas: 38% admitem colocar a saúde dos outros à frente da sua.

Nas mulheres entre os 25 e os 44 anos, classificadas no estudo como ‘Mulheres 360º’, regista-se um défice de apoio emocional à medida que aumenta a carga familiar. A perceção de suporte emocional desce de 75%, nas mulheres sem dependentes, para 53% entre as que cuidam de dois ou mais familiares.

“Muitas mulheres sabem que devem cuidar da sua saúde, mas enfrentam barreiras práticas, familiares e profissionais que tornam esse cuidado mais difícil. Se queremos impactar positivamente a qualidade de vida promovendo uma verdadeira cultura de prevenção, temos de
olhar também para o contexto em que estas mulheres vivem e trabalham”, afirma Rita Marques da Costa, Diretora da CUF Oncologia.

Os dados revelam que a prevenção não é apenas uma escolha de literacia, mas depende de condições logísticas e emocionais que,  atualmente, falham no apoio à mulher ativa, colocando em risco a eficácia do diagnóstico precoce.

O estudo lança também um alerta clínico: a adesão a rastreios fundamentais está abaixo dos protocolos recomendados, com destaque para a vigilância do cancro colorretal e de doenças intestinais, sobretudo nas faixas etárias mais jovens.

O VOH CoLAB desenvolve estudos de opinião, inquéritos e auscultações públicas com o objetivo de medir resultados em saúde, otimizar a experiência do doente e promover a literacia em saúde.

O estudo, promovido pela CUF e VOH CoLab, baseia-se numa amostra de 2.564 mulheres qualificadas de empresas de referência. O relatório demonstra que “a prevenção depende de um ecossistema onde a cultura organizacional é determinante para apoiar ou inibir as intenções preventivas individuais”.

“A saúde preventiva das mulheres é também um tema de liderança, talento e sustentabilidade. Empresas que criam condições para que as suas colaboradoras cuidem da saúde estão a investir em bem-estar, retenção, produtividade e responsabilidade social”, afirma Paula Brito Silva, Administradora Executiva da CUF.

Resumo Executivo do Estudo sobre Saúde Preventiva nas Mulheres Ativas

1. Motivações e o “Efeito Burden”
A intenção de prevenção é frequentemente travada pela sobrecarga do cuidado informal.
Mais de um terço das mulheres admite colocar a saúde dos outros à frente da sua, com
prioridades que oscilam consoante o ciclo de vida.

2. A Ilusão da Flexibilidade Laboral

Embora 74% das mulheres refiram ter flexibilidade para consultas, 47% têm uma
flexibilidade condicionada (necessidade de justificar ou recuperar tempo). Apenas 26%
gozam de flexibilidade efetiva, o que leva ao adiamento ou cancelamento de atos
preventivos.

3. O Paradoxo dos Rastreios: Adesão vs. Negligência

Existe uma boa adesão a rastreios oncológicos femininos e cardiometabólicos após os 45
anos. Contudo, há falhas alarmantes noutras áreas:

– Cancro Coloretal: Mais de 70% nunca realizou colonoscopia ou pesquisa de sangue
oculto.

– Doenças Ósseas: 86% nunca realizou uma densitometria óssea.

4. O Impacto Direto nas Empresas

As doenças cardiovasculares e tumores representam quase 50% da mortalidade em
Portugal. A “progressão silenciosa” de doenças assintomáticas resulta em diagnósticos
tardios, gerando para as empresas:
– Absentismo severo e quebra de produtividade.
– Perda de talento e know-how por reformas antecipada

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