“Cerca de 20% dos adolescentes [inquiridos] reporta ter tido pelo menos uma vez na sua vida o envolvimento em comportamentos autolesivos”, entenda-se, cortar, queimar ou arranhar, com o intuito de magoar o próprio corpo para “regular emoções difíceis e intensas”.
Esta é a conclusão de um estudo realizado na Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra, levado a cabo pela investigadora Ana Xavier, ao longo de quatro anos, no âmbito do seu doutoramento.
De acordo com as conclusões do estudo, as raparigas reportam um “maior envolvimento” em comportamentos autolesivos e as que relatam “maiores níveis de sintomas depressivos”. Consequentemente, tendem a “ser mais autocríticas e a relatar maiores problemas com o grupo de pares”. Relativamente à faixa etária, constata-se uma maior incidência de autolesões entre os 15 e 16 anos de idade, período que “coincide com um maior desenvolvimento do pensamento abstrato e comparação social com os outros”, explica a investigadora, em declarações à agência “Lusa”.
Segundo a responsável, os comportamentos autolesivos não sugerem “intencionalidade de suicídio”. No entanto, “este é um fator de risco”, sublinhou. Para a investigadora, esta temática poderá ser mais abordada através da criação de programas de “prevenção e de intervenção para ajudar” os jovens a lidarem de “forma mais eficaz com experiências emocionais”, através de “processos de regulação emocional mais adaptativos”, como estratégias de autotranquilização e de autocompaixão.
Ana Xavier explica que os adolescentes que recordam “experiências de ameaça, de subordinação e desvalorização nas relações precoces com a sua família” tendem a experienciar “maiores níveis de sintomas de depressão” e a autolesarem-se.
O projeto foi desenvolvido no Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC). O inquérito foi realizado a 2.863 adolescentes, com idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos, a frequentar o 3.º ciclo e o ensino secundário em várias escolas do distrito de Coimbra. O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.