“Um empreendedor de sucesso pode significar extrema riqueza. Mas com extrema riqueza vem extrema responsabilidade. E a responsabilidade para mim é investir na criação de novos negócios, criar trabalho, empregar pessoas, e colocar dinheiro de parte para lidar com questões onde possamos fazer a diferença” – Richard Branson, Empreendedor
Sabemos que a base de crescimento da qualquer economia, a criação de riqueza, está ancorada nas empresas – sejam elas de produtos ou serviços. Quando as empresas não têm na sua estrutura capitais próprios para alavancar os seus projectos de crescimento, o mais natural é recorrerem à banca, solicitando os financiamentos necessários para os pôr em marcha, sendo aqui o crédito um verdadeiro multiplicador da actividade económica.
Ora, se assim é, não se percebe por que razão, em Portugal, o crédito concedido se encontra (na forma como é destinado), completamente enviesado, criando com isto problemas no crescimento da própria economia como um todo.
Se atentarmos ao Boletim Estatístico do Banco de Portugal, podemos apreciar que o Crédito Concedido a Empresas não Financeiras (PME) desde Junho de 1998 que é sempre inferior ao Crédito Concedido a Particulares! Nessa altura, e pela primeira vez, o Crédito Concedido a Empresas não Financeiras representava 47,66% e o Crédito Concedido a Particulares 52,34%. Hoje em dia, essa percentagem é de 42,75% e 57,25%, respectivamente. Aliás, e como se pode ver, o desequilíbrio ainda se acentuou mais.
Pode existir uma leitura desta realidade, mas que, para mim, além de não ser razoável, não explica toda a realidade.
De acordo com a classificação atribuída pelo Banco de Portugal aos Créditos atribuídos aos Particulares, estes estão divididos em: Crédito à Habitação, Crédito ao Consumo e Créditos para Outras Finalidades. Se atentarmos ao peso que cada uma destas modalidades de crédito tem no total do Crédito Concedido a Particulares, temos: Crédito à Habitação, 78,83%; Crédito ao Consumo, 15,25%; e Crédito para Outras Finalidades, 5,92%.
Como se pode ver, o peso fortíssimo está na Habitação e isto tem uma explicação e uma razão – os bancos preferem colocar o seu crédito no mercado imobiliário, porque em caso de um incumprimento contractual, em que o cliente tenha que ser executado, existe sempre uma garantia real (o próprio imóvel), vai suavizar eventuais imparidades ou menos-valias que o banco venha a registar. Existe a hipoteca a favor da instituição financiadora, esta executa a hipoteca vendendo o imóvel e, com um pouco de sorte, ainda cria mais-valias ou, na pior das hipóteses, consegue restringir as suas perdas a muito pouco.
No entanto, e em minha opinião, o principal e mais nobre papel da banca é financiar as empresas, porque são estas que criam riqueza e geram crescimento para o nosso país. Ora, financiando projectos criadores de riqueza, acaba por o rendimento distribuído por estas empresas proporcionar aos seus colaboradores o acesso a um nível de produtos e serviços que, por sua vez, irão dinamizar a oferta (as empresas que oferecem), alimentando um circuito em que todos ganham.
Mas, infelizmente, não é isto que acontece desde Junho de 1998!
Mesmo hoje, com uma situação conjuntural adversa e difícil, não se vê uma publicidade da banca ao financiamento das empresas, porém, é muito comum ver a banca a oferecer crédito hipotecário acenando com os spreads mais baixos e outras propostas muito similares. O erro continua. Bom, mas talvez não seja erro – talvez seja mesmo essa a vontade da banca. Quer correr riscos, mas de forma muito controlada, pelo que o melhor “seguro” é o refúgio na concessão de crédito para compra de habitação.
Desta forma, o financiamento do modelo de crescimento da economia portuguesa continua enviesado e muito mal direccionado, acabando os empresários (que possam ter projectos interessantes, mas para os quais lhe falta capital), estrangulados por este posicionamento da banca.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.