A evolução tecnológica é a base de saltos civilizacionais dos povos. Diferentes evoluções e revoluções industriais e científicas permitiram saltos de riqueza e qualidade de vida na humanidade, no geral, e Portugal, em particular. E, por isso, estranho que numa altura em que o país se confronta com problemas estruturais, na extensa cobertura mediática não encontremos uma palavra sobre tecnologia e os transformadores saltos em frente que ela pode permitir.
Irei dar uma ajuda. Cópia Digital (“Digital Twin”) é o nome de um conjunto de ferramentas que pretende criar uma cópia virtual de qualquer sistema físico, continuamente actualizada em tempo real. Permitem correr simulações complexas dos sistemas reais testando alterações de variáveis específicas. O resultado é uma enorme redução de riscos e problemas e um significativo ganho de performance. Ou seja, permite desenhar os sistemas óptimos, continuamente actualizados em tempo real, tal como um GPS automaticamente atualiza a rota.
Tradicionalmente muito caros e limitados, este tipo de sistemas eram restritos às indústrias da defesa e aeroespacial. Mas uma alteração de circunstâncias – preço de computação mais baixo, generalização de modelos de inteligência artificial a baixo custo, introdução do 5G – têm tornado o seu uso muito mais universal. Hoje, a maioria dos grandes fabricantes industriais têm ou estão a construir algum tipo de Cópia Digital das suas fábricas e cadeias de abastecimento e distribuição, sendo já usados para enfrentar as dificuldades actuais.
Mas isto é apenas o início. O custo progressivamente mais baixo destas tecnologias levará a que sejam adoptadas universalmente e a todos os campos de negócios como base de vantagem competitiva. Uma Cópia Digital tanto pode optimizar o desenho de um avião como o trânsito de uma cidade ou maximizar quantos clientes um conjunto de balcões e funcionários consegue atender.
A título de exemplo, três problemas estruturais de Portugal amplamente debatidos nos últimos meses poderão ter saltos quantitativos aplicando este tipo de tecnologias:
Saúde: uma cópia digital poderia simular os vários cenários de ruptura, antecipar qual a melhor distribuição de recursos em métricas muito concretas, como tempos de espera e gravidade de doenças/atendimentos.
Incêndios e Florestas: uma cópia digital poderia antecipar e prevenir cenários como Pedrogão Grande, tal como testar as melhores soluções de distribuição de recursos sem riscos humanos, continuamente actualizada para cada ocorrência.
Água: a gestão da água é um dos problemas fundamentais da nossa sociedade nas décadas vindouras e necessita ser planeada como tal. Do lado do fornecimento temos cada vez mais imprevisibilidade, com as alterações climáticas, enquanto o consumo é gerido de forma desconexa. No que pesa mais – a agricultura – decisões sobre o tipo de culturas e até épocas e métodos empregues fazem enorme diferença na água que gastamos. Em cima há que somar a geração de electricidade, a actividade industrial, o consumo humano, incluindo variações do turismo. Uma cópia digital seria uma ferramenta fundamental para um modelo integrado de gestão.
Para darmos o passo em frente é preciso mais do que experiência e intuição. São necessárias ferramentas e tecnologia que nos permitam decidir em função de dados e realidade. Que nos permitam tentar e experimentar com risco aceitável. É certo que esta tecnologia (como qualquer outra) necessita investimentos e formação de recursos humanos. Mas os retornos serão muito maiores, não só no ganho que representa para os desafios da nossa sociedade, como pela criação de competências técnicas e científicas que poderão colocar de forma sustentada, a crescer, as nossas empresas internacionalmente.
Está na hora de discutirmos e colocarmos a tecnologia ao serviço da nossa economia.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.