Dólar valoriza com guerra no Irão

O dólar dos Estados Unidos emergiu como o principal refúgio seguro para investidores no meio da escalada do conflito no Médio Oriente, com a guerra entre os EUA, Israel e o Irão a mostrar poucos sinais de resolução iminente, segundo a Ebury.

Dólar valoriza com guerra no Irão
nota-dolar

O dólar americano consolidou-se como principal refúgio seguro perante a escalada do conflito no Médio Oriente, impulsionado pela fuga de ativos de risco e pela subida dos preços do petróleo após a intensificação da guerra entre EUA, Israel e Irão, segundo o relatório FX Update da Ebury de 6 de março de 2026.

De acordo com o relatório da Ebury, empresa de serviços financeiros, a moeda americana subiu 1,5% em relação às principais divisas globais esta semana, impulsionada pela fuga de ativos de risco e pelo aumento nos preços do petróleo.

Com o bloqueio do Estreito de Ormuz, o relatório da Ebury aponta para uma valorização contínua da moeda e risco de o petróleo atingir os 100 dólares por barril, prevendo-se um conflito com duração de várias semanas.

O relatório, assinado por Matthew Ryan, CFA e diretor de Estratégia de Mercado da Ebury, destaca que o que começou como uma relativa acalmia nos mercados no início da semana deu lugar a uma ansiedade crescente. “Os mercados reagiram de forma clássica ao risco, comprando o dólar como o ativo seguro definitivo devido à sua liquidez”, explica Ryan. Este atribui o fortalecimento da moeda também ao facto de os EUA serem exportadores líquidos de energia, beneficiando da alta nos preços do crude, e à redução nas expectativas de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed).

A guerra, que se intensificou após ataques coordenados no fim de semana, expandiu-se para campanhas aéreas sustentadas pelos EUA e Israel, além de barragens de mísseis e drones lançados pelo Irão contra bases militares americanas e israelitas na região, incluindo nos Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Arábia Saudita.

Relatos de que o Irão estaria a preparar negociações para encerrar o conflito trouxeram algum alívio temporário, mas a retórica do presidente Donald Trump, que projeta uma duração de pelo menos quatro a cinco semanas, e do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, que defende o “direito ilimitado à autodefesa”, sugerem um prolongamento.

Entre os impactos económicos mais notáveis está a subida nos preços do petróleo. Os futuros de Brent subiram para o intervalo de 83-85 dólares por barril, face aos 70 dólares anteriores, principalmente devido ao bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irão, que reduziu o tráfego de navios em cerca de 90% por riscos de ataques e prémios de seguro elevados.

“Embora o fornecimento iraniano represente apenas 4,5% da produção global, o fecho do Estreito pode levar os preços aos 100 dólares por barril se a situação não melhorar até ao fim da próxima semana”, alerta o relatório. A Ebury sugere que aumentos na produção da OPEP+ poderiam mitigar este cenário, mas o risco de ganhos adicionais permanece elevado.

Moedas europeias, como o euro e a coroa sueca, além de divisas de mercados emergentes como o rand sul-africano, estão entre as mais afetadas, pressionadas pela subida de 50% nos preços do gás natural na União Europeia.

A volatilidade nos mercados cambiais (FX) está elevada, mas ainda não em níveis de pânico.

O relatório enfatiza que a duração do conflito será crucial para o rumo dos mercados. Fatores-chave incluem o esgotamento de munições iranianas – cujas taxas de lançamento caíram 90% desde o fim de semana – e a resposta de Trump à pressão de mercados e eleitores, especialmente com as eleições intercalares (midterms) a aproximarem-se. “Trump será cauteloso com o impacto dos custos energéticos crescentes na inflação americana, o que poderia forçar uma postura mais hawkish (agressiva) do Fed”, nota Ryan.

Os mercados estão a descontar um conflito que dura semanas, não dias, com uma probabilidade de apenas 1 em 3 de que as operações militares americanas terminem até ao fim de março, segundo dados da Polymarket. A Ebury prevê continuidade na valorização do dólar enquanto a guerra persistir, mas com potencial consolidação nos níveis atuais. Um envolvimento regional mais amplo ou o fecho prolongado do Estreito de Ormuz poderia impulsionar o petróleo acima dos 100 dólares, exacerbando a venda de ativos de risco e fortalecendo ainda mais o dólar.

Este cenário reflete uma complacência inicial dos mercados, que já incorporavam algum prémio de risco nos preços do petróleo (+20% no ano até ao fim de semana).

No entanto, a ausência de um fim rápido sugere que desvios temporários podem tornar-se mais persistentes. A Ebury adverte que o relatório serve fins informativos e recomenda a consulta de consultores independentes antes de qualquer decisão financeira.

Relacionado

Ebury não espera cortes de juros pela Fed este ano

Ebury não espera cortes de juros pela Fed este ano

Ruben Pires19 Mai
No cenário traçado pela Ebury "é garantido" que o Banco Central Europeu (BCE) aumente os juros em junho. Contudo a instituição financeira considera que a perspetiva de aumentos de juros pelo BCE em 75 pontos base, em 2026, é "exagerado" face a um outlook de crescimento económico mais fraco para a Europa.
Gonçalo Vilas Boas é o novo Country Manager da Ebury em Portugal

Gonçalo Vilas Boas é o novo Country Manager da Ebury em Portugal

Maria Teixeira Alves11 Mai
Gonçalo Vilas Boas vai liderar as operações e a estratégia de crescimento da Ebury em Portugal, onde a empresa abriu recentemente o seu segundo escritório, no Porto. Nas novas funções ficará responsável pela expansão da presença da empresa em Portugal, pelo acompanhamento dos atuais clientes e pela identificação de oportunidades junto de PME e empresas de média capitalização.