O eterno masculino… sem bolsos a transbordar

As placas tectónicas já mexem. Não se prevê um tremor de terra, mas sim abalos q.b. no universo estereotipado dos acessórios para homem. Executivos, vilões de toda a espécie e fãs da clássica e obsoleta pasta na mão ou mochila ao ombro – por mais design e ‘genuine leather’ que possa ter – o mundo mudou. E a mala XXL veio para ficar.

O eterno masculino… sem bolsos a transbordar
Tote bags for men

 

Nada é mais inestético do que um homem com bolsos protuberantes. À frente, atrás, pouco importa. A carteira, as chaves de casa, do carro, o que for… é inestético. A conversa é outra quando falamos do homem que não abdica da parafernália de coisas que leva consigo todos os dias, mas que sabe fazê-lo com estilo. Ainda não está a ver a solução? Pense oversized, enorme, gigante. Ou num simples acrónimo: XXL. Isso mesmo, a mala XXL para homem veio para ficar. De preferência acompanhada de um ar blasé e mão firme, ideais para passear uma Bottega extra-large ou uma Birkin gigantesca.

Cabe tudo lá dentro. Até aquilo que não queremos ter por perto. Do ego inflamado à última edição da “Monocle”, porque sim, passando pela toalha de microfibra para o ginásio e o carregador e o power bank e o smartwatch e os phones e o laptop… Isso tudo. Nas ruas de Londres, Milão, Paris, Florença e Nova Iorque, os homens que levam o estilo a sério já o põem em prática. Não há volta a dar. É oficial e extravasa o mundo da moda. E antes que qualquer argumento “contra” comece a ganhar forma no córtex frontal, observe os nomes que constam desta lista.

Masculinidade elegante, não frágil. E muito estilo, claro

David Beckham, esse mesmo, Declan Rice, do Arsenal, ou “Toti” Gomes – o futebolista guineense naturalizado português que joga na seleção e no Wolverhampton – são apenas alguns exemplos do universo da ‘bola’ que se juntam a músicos como Pharrell Williams (que já admitiu ter a febre de colecionador nesta matéria, ou melhor, acessório) ou A$AP Rocky (um indefetível do modelo Lady Dior). Todos se renderam ao charme XXL. O mesmo pecado confessa o cantor e ator britânico Harry Styles, que tem usado uma Margaux da marca The Row, modelo que custa mais de quatro mil dólares.

Do outro lado do Atlântico, na última edição do Super Bowl, Travis Kelce e DeAndre Hopkins, duas estrelas do futebol americano, arrasaram com as suas prestações, sim, mas também com as suas malas gargantuescas e ultraluxuosas. Ousamos ainda recuar a 2024, para dar nota do estilo da seleção francesa de futebol fora do campo. A fasquia subiu e não faltou um ranking dos looks que mais deram que falar. Invocamos apenas um, para não fastidiar. Michael Olise e a sua Bottega Veneta oversized, com o habitual entrançado da marca. Ficou apenas uma dúvida. Em quem se terá inspirado: Jacob Elordi ou A$AP Rocky?

E agora que introduzimos Elordi, temos de falar no seu je ne sais quoi. O ator australiano, estrela da saga Kissing Booth, que fez furor na série Euphoria (2019) e em filmes como Priscilla (2023) ou Saltburn (2023), é um daqueles homens que hipnotiza designers e audiências. Fenómenos como este surgem a cada quatro, cinco anos (não vamos deixar-nos obcecar pelo rigor matemático) e até podem ser previstos, já o tal je ne sais quoi – porquê ele e não outro – é bem mais difícil. O que podemos dizer é que a vermelha Andiamo, da Bottega Veneta, não voltou a ser a mesma desde que Elordi se passeou com ela. Nem a Speedy bag amarela da Louis Vuitton, que também conquistou Pharrell Williams e promete ser um caso sério na lista de opções.

Entre os números e o mercado, o olhar de um ‘dandy’

Em terras lusas (ainda) não encontramos lastro desta tendência nas ruas. Mas em círculos mais restritos já dá que falar. Diz quem sabe que veio para ficar. Insistimos mais uma vez, o mundo está a mudar. A masculinidade não sai comprometida pelo acessório. Antes lhe confere um caráter de statement. Atitude descomplexada. No sentido que o dicionário lhe dá: acessório, nome masculino; “o que completa; complemento”.

Mas já voltaremos à questão estética. Agora, fazemos um breve parêntesis para falar de números. Ou daquilo que o mercado diz a quem o estuda. No caso do grupo LVMH, os dados do segundo trimestre remetem para uma descida de 9% neste segmento. Em dezembro de 2024, um outro grupo, The Independents, publicou um estudo com projeções a dois anos da compra de malas de luxo, que aponta para uma descida de 14%. A explicação plausível? Saturação de mercado e inflação – dizem.

Mas o mercado não se fica por aqui. Também se manifesta no universo digital. E os dados do último relatório anual da plataforma de revenda de artigos de luxo online The RealReal, um dos líderes mundiais para artigos autenticados, apontam noutro sentido: as pesquisas por malas de homem cresceram 900%. Vários grandes retalhistas corroboram a tendência: cada vez há mais homens junto dos expositores de malas oversized nas lojas físicas. Muitos dirão que é empírico. Aguardemos. Quem sabe esta ‘onda’ ainda ganha fôlego e toma conta da rua.

Ou problematizemos a questão em plena canícula. “Devemos ser uma obra de arte ou vestir uma”, escreveu Oscar Wilde nos idos do século XIX, quando tentava compreender se o estudo sobre o hábito de se vestir integrava o campo da moral e da ética, ou se deveria ser analisado a partir da arte ou da estética. Na ausência de uma resposta cabal cruzou ambas e sentenciou que o gosto segue uma moral estética e, como tal, responde igualmente ao domínio da ética e da estética. Sem esquecer, diz Wilde, que o ato de vestir também remete para “liberdade” e “individualidade”. Brincando com coisas sérias, tudo isto (e mais) cabe numa mala XXL.

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