Três vizinhos resolvem juntar-se para organizar o Mundial das Américas, o mais concorrido de sempre (nunca esta competição tinha tido 48 seleções) e o primeiro a agregar três países, com toda a riqueza e diversidade que se conhece entre EUA, Canadá e México. Problema: um dos organizadores está apostado em fomentar a má vizinhança entre organizadores com políticas de imigração severas e imposições comerciais duras ao México e uma malha mais apertada em torno do tráfico de droga.
Se a sul a convivência é difícil, a norte não é melhor: segundo os analistas, as relações entre EUA e Canadá atravessam uma das fases de maior tensão nas últimas décadas, tanto a nível diplomático, como comercial e até de defesa, com as políticas bilaterais dos dois países a serem diretamente impactadas pela relação tensa (no mínimo) entre Donald Trump e o primeiro-ministro canadiano Mark Carney. E se as relações entre organizadores estão pelas ruas da amargura, há ainda outro fator que promete ensombrar o Mundial: a poucos dias do pontapé de saída, ainda não há fumo branco relativamente ao fim do conflito entre EUA e Irão e é bom lembrar que o Irão é uma das 48 seleções que irá disputar a competição e apesar das pressões para que jogassem no Canadá ou no México (e até se sugeriu a determinada altura que Itália, que não se conseguiu qualificar para a prova, pudesse substituir o Irão), a equipa iraniana irá jogar em território norte-americano: nas cidades de Los Angeles e Seattle, com a primeira partida a ser disputada a 15 de junho (contra a Nova Zelândia).
Ouvido pelo JE, Luís Tavares Bravo, presidente do International Affairs Network, alerta que este Mundial “irá decorrer num ambiente de fragmentação geopolítica global”. Apesar de se esperar um evento com um impacto económico estimado acima dos cinco mil milhões de dólares, este economista destaca que o Mundial “estará exposto a riscos concretos” e dá exemplos: “ameaças terroristas, tensões migratórias na fronteira sul dos EUA, conflito Rússia-Ocidente, instabilidade no Médio Oriente e crescente polarização política interna americana”.
Num evento em que são esperados cinco milhões de adeptos (com toda a logística que implica um acontecimento desta magnitude), Luís Tavares Bravo alerta para o facto de ser decisivo “garantir segurança, estabilidade e cooperação internacional” num Mundial que é “um raro espaço de união entre nações, e de que o mundo bem precisa nos dias que correm”.
80 mil milhões de impacto
Os números são do relatório conjunto da FIFA e da Organização Mundial de Comércio e são absolutamente esmagadores quanto ao impacto económico global de um Mundial desta dimensão: estima-se mais de 80 mil milhões de dólares em atividade económica total, com uma contribuição direta de quase 41 mil milhões de dólares para o PIB mundial e ainda a criação de cerca de 824 mil postos de trabalho a nível global. Turismo e transportes, tecnologia e Inteligência Artificial e consumo e retalho serão os setores mais impactados durante a prova.
Este impacto vem ao encontro das expectativas da FIFA quando alargou a prova a 48 seleções e a organização a três países: os 104 jogos que vão decorrer entre 11 de junho a 19 de julho (e todos os proveitos comerciais que daí vão resultar) coloca o Mundial de 2026 num patamar nunca visto: este torneio será a maior plataforma financeira da história do desporto mundial, com patrocinadores e organização a esfregar as mãos de satisfação pelos resultados que vão obter.
Para a FIFA, é de esperar recordes absolutos de arrecadação de receitas com proveitos estimados em quase 11 mil milhões de dólares: 4,2 mil milhões em direitos de transmissão televisiva, três mil milhões em receitas de bilheteira e contratos de patrocínio que deverão um valor de 2,8 mil milhões. Nunca se viu nada assim.
É estimado que os EUA seja o país mais beneficiado com o Mundial de 2026. Os especialistas avançam que a injeção no PIB seja de 17,2 mil milhões de dólares, aos quais se junta a criação de 185 mil empregos. De acordo com análise financeira da Deloitte, o México pode ter um impulso económico superior a quatro mil milhões de dólares, diretamente relacionado com o Mundial (apesar dos alertas de que este impacto seja temporário e canalizado para o turismo regional). Já o Canadá espera um retorno de 3,8 mil milhões de dólares canadianos mas já soaram alguns alertas no país relativamente ao eventual aumento dos custos com segurança e logística por partida.
“Mil euros? Não pagava”
Seja qual for o desfecho deste Mundial, há uma expressão que lhe vai ficar colada: preços dinâmicos. A variável determinada pelos algoritmos que estabelece o preço com base na procura tem sido altamente criticada pelos adeptos e enaltecida pelo responsável do evento para os EUA, nomeado por Trump. Andrew Giuliani defendeu o elevado custo dos bilhetes com a máxima de que será o mercado a ditar o preço. Ao “Financial Times”, Andrew Giuliani declarou: “É esse o propósito de uma lógica de preços dinâmicos. Mostra o enorme interesse que está a ter a possível vinda aos EUA para ver um Mundial”. Um “enorme interesse” que não parece gerar entusiasmo em Trump, mesmo que se trate do jogo de estreia dos norte-americanos no Mundial no qual serão anfitriões.
“Certamente que gostaria de ver esse jogo mas vou ser honesto: não pagaria mil dólares por um bilhete”, disse Trump quando questionado pelo “New York Post” a propósito do valor do bilhete para a partida de 12 de junho. Aparentemente, o presidente não é fã dos preços dinâmicos, variável determinada pelos algoritmos que estabelece o preço com base na procura. Para estabelecer este sistema, a FIFA destacou que as receitas dos bilhetes ajudam a desenvolver o futebol a nível mundial. Um bom princípio mas não suficientemente interessante para travar uma investigação dos reguladores.