Da avença mensal de 4.500 euros da Solverde às contradições: o que se sabe sobre a polémica empresa de Montenegro

Esta sexta-feira foi conhecido um desenvolvimento importante sobre este caso. A empresa familiar que pertence a Luís Montenegro e a sua família, a Spinumviva recebe uma avença mensal da Solverde de 4.500 euros desde julho de 2021. Constitui um terço da faturação desta empresa.

Da avença mensal de 4.500 euros da Solverde às contradições: o que se sabe sobre a polémica empresa de Montenegro
Luís Montenegro

Spinumviva: o nome da empresa familiar está longe de ser o mais atrativo mas o caso que a envolva tem merecido atenção mediática esta semana. E o motivo é óbvio: a empresa da qual Luís Montenegro teria deixado de ser sócio maioritário em novembro de 2022 (antes de ser eleito líder do PSD) continua a faturar e a ter o primeiro-ministro na estrutura.

Nestes últimos dias levantou-se a hipótese de existir um conflito de interesses (noticiado no sábado pelo “Correio da Manhã”) tendo em conta que a Spinumviva por atuar no sector imobiliário poder beneficiar com uma possível alteração à Lei dos Solos. Mesmo com a empresa nas mãos da família (algo que se soube esta semana que não é bem assim), o próprio Luís Montenegro poderia tirar proveitos económicos tendo em conta que se encontra casado em comunhão de bens.

Esta sexta-feira foi conhecido um desenvolvimento importante sobre este caso. A empresa familiar que pertence a Luís Montenegro e a sua família, a Spinumviva recebe uma avença mensal de 4.500 euros, de acordo com a manchete do jornal “Expresso” desta sexta-feira. De acordo com o semanário, este contrato de consultoria e gestão de proteção de dados está em vigor desde julho de 2021 e é uma das fatias mais importantes das receitas mensais da Spinumviva: cerca de um terço dessas receitas.

Luís Montenegro terá defendido a Solverde nas negociações com Estado, chefiado na altura por António Costa, para definir a atribuição de compensações nos negócios dos casinos devido à pandemia, avançou esta quinta-feira o “Correio da Manhã”. Recorde-se que a Solverde detém atualmente as concessões do jogo nos casinos do Algarve e de Espinho.

O “CM” questionou o gabinete do primeiro-ministro sobre a natureza da intervenção de Luís Montenegro neste processo sendo que a Solverde esclareceu que o atual chefe de Governo prestou assessoria jurídica no processo negocial com o Estado

Na sequência destas negociações, a Solverde e o Governo assinaram aditamentos aos contratos de concessão relativos à exploração do jogo nos casinos do Algarve e de Espinho. Esses aditamentos foram assinados a 10 de março de 2022, a três meses de Luís Montenegro assumir a liderança do PSD. Fruto desse acordo, a concessão foi prolongada até ao final deste ano, após avaliação do reequilíbrio económico e financeiro face à pandemia.

Já em relação à ação interposta pela Solverde contra o Estado, devido ao prejuízo causado pela crise financeira de 2008 e em que foi reclamado o pagamento de 15,5 milhões de euros, o gabinete do primeiro-ministro nega que tivesse qualquer intervenção nesse processo.

Spinumviva nasceu em 2021

Da Spinumviva, sabe-se que nasceu em 2021, por iniciativa do atual primeiro-ministro, tendo como áreas de atividade a consultoria de negócios e de gestão, com a sede da organização a estar na residência do atual primeiro-ministro, em Espinho.

Contudo em junho de 2022, Luís Montenegro fez saber que deixaria de ser gerente e sócio maioritário da empresa, ficando a organização a cargo da sua esposa e dos filhos. Hoje sabe-se que não aconteceu exatamente assim.

Com esta mudança, alargou-se também o âmbito das atividades da Spinumviva, onde para além da consultoria se acrescentou a compra e venda de bens imobiliários, e a aquisição de imóveis para revenda. A empresa terá faturado 718 mil euros, em três anos, sendo que em 2021 a faturação se cifrou em 67 mil euros.

Perante este caso, o líder do Chega, André Ventura, admitiu, na segunda-feira, avançar com uma moção de censura, cujo propósito se veio a concretizar, caso não fossem dadas explicações sobre este negócio. André Ventura classificou este negócio como sendo de uma “suspeita de corrupção absoluta”.

Em conferência de imprensa, o líder do Chega disse ser “aviltante que um primeiro-ministro possa ter em sua casa a sede de uma empresa que poderá ter feito negócios” com o Estado.

O “Correio da Manhã” avançou na quarta-feira que o negócio de venda de Montenegro à sua esposa é nulo pelo que Montenegro continua a ter uma posição maioritária na empresa, e esta quinta-feira disse que apesar da empresa ter faturado 718 mil euros gastou com pessoal 92 mil euros, o que corresponderia a 13% do volume de negócios total da empresa com cada um dos gerentes, que são os membros da família do atual primeiro-ministro, a receberem um salário de mil euros brutos por mês.

Perante esta sequência de eventos, que foi ocorrendo desde o fim-de-semana, Montenegro recusou a ideia de existir conflito de interesses e assegurou que “não é e não será objeto da atividade da empresa qualquer negócio imobiliário ligado” à questão da Lei dos Solos, que entre outras coisas vai reclassificar os solos rústicos em urbanos.

Luís Montenegro assegurou que  “não comprou nem vendeu, nem vai comprar ou vender nada”. O primeiro-ministro disse ainda, na quarta-feira, que se encontra “tranquilo” e que vai prestar esclarecimentos na Assembleia da República.

Sobre este caso de Montenegro o vice-presidente da Frente Cívica, João Paulo Batalha, em entrevista ao Jornal Económico, considerou existir um conflito de interesses, e que o primeiro-ministro só tem duas opções. “Ou extingue a empresa ou sai do cargo”, afirmou João Paulo Batalha.

Outra reação a este caso do primeiro-ministro chegou do conselheiro de Estado, António Lobo Xavier, que, na quarta-feira, na SIC Notícias, considerou que a “história não está a correr bem” e que se Montenegro está “em comunhão de adquiridos, não pode livrar-se da posição” que tem na empresa.

António Lobo Xavier considerou ainda “embaraçoso” que um primeiro-ministro jurista “explique assim o fim da sua participação na sua sociedade”, afirmando que existem neste caso “uma série de potenciais negócios a que um primeiro-ministro não pode estar ligado e que não se desligou pela cedência da quota”.

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