Crise política em França com forte impacto sobre a dívida pública

O diferencial entre as yields (spread) com a Alemanha atingiu os 0,87, um pico desde 2012, exacerbado pela descida da notação soberana pela Fitch e pela persistente instabilidade política.

Crise política em França com forte impacto sobre a dívida pública
French President Emmanuel Macron looks on during an official welcome ceremony for the President of Angola, Lourenco, at the Hotel des Invalides in Paris, France, 16 January 2025.  EPA/LUDOVIC MARIN / POOL MAXPPP OUT

O pedido de demissão de Sébastien Lecornu ao cargo de primeiro-ministro de França, aceite por Emmanuel Macron, “sinaliza uma profunda disfunção na vida política francesa.  Esta saída repentina, num momento em que o país procura uma orientação orçamental e social clara, mergulha a França numa instabilidade política sem precedentes desde o início do segundo mandato de Emmanuel Macron”.  A leitura da realidade política francesa, inscrita no mais recente ‘research’ de Antoine Andreani, diretor de Research da XTB França, indica que “o presidente francês enfrenta agora um dilema: nomear urgentemente um novo primeiro-ministro, dissolver uma Assembleia Nacional já fragmentada ou assumir, pelo menos simbolicamente, a responsabilidade pelo impasse atual”.

As consequências são imediatas para os mercados de capitais, com os juros da dívida publica a subirem, enquanto o CAC 40, o principal índice francês do mercado de capitais, caiu quase 2% durante a sessão desta segunda-feira, com os bancos franceses a liderarem as perdas. “O executivo parece paralisado, enquanto a opinião pública assiste, cansada, a um espetáculo político que se tornou quase rotineiro na sua crise permanente”.

Para o analista, França encontra-se numa posição delicada: défices orçamentais elevados, instabilidade política e crescente desconfiança dos investidores criam uma combinação tóxica. Em setembro de 2025, a dívida pública atingiu 3,345 biliões de euros, ou 114% do PIB, a mais elevada da zona euro. Os défices continuam preocupantes: 5,8% do PIB em 2024 e 5,4% projetados para 2025. As yields da dívida publica têm subido desde 2024: a taxa de referência a 10 anos está agora em 3,60%, uma barreira crítica que não deve ser ultrapassada por receio de um ataque à dívida francesa. O diferencial entre as yields (spread) com a Alemanha atingiu os 0,87, um pico desde 2012, exacerbado pela descida da notação soberana pela Fitch e pela persistente instabilidade política.

“Todos os governos que tentaram reduzir o défice foram derrubados, aumentando os receios de que, em 2026-2027, o custo da dívida pública possa exceder o orçamento nacional para a educação (66 mil milhões de euros contra 64 mil milhões de euros). Hoje, está em jogo a própria credibilidade do Estado e a confiança na democracia. A dívida francesa ameaça transformar um choque político numa tempestade sistémica. França deve agora provar que ainda pode manter-se de pé”, conclui Antoine Andreani.

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