Nuno Couceiro, CEO da Ameno e membro do alumni Club do The Lisbon MBA Católica | Nova

Construção: desafio presente e futuro

Se juntarmos a revolução digital às competências de gestão, é possível tornar as funções ligadas à construção menos cliché e mais tecnológicas.

O setor da construção pesa, sensivelmente, 5% no PIB nacional, sendo que os trabalhadores ligados à construção (e serviços conexos com a mesma) representam perto de 10% do total de empregos no nosso país, segundo dados publicados pelo Banco de Portugal.

Um dos grandes desafios do setor da construção, que já é uma realidade nos dias de hoje, mas que se irá agravar nos próximos anos, será a disponibilidade e qualificação dos recursos humanos para esta atividade.

O desafio dos recursos humanos na Construção

Quando se pensa em recursos humanos numa empresa de construção, pensa-se, sobretudo, em engenheiros e operários executores (pedreiros, etc.), sendo que a imagem que temos das duas funções é completamente distinta. No entanto, uma empresa de construção tem um conjunto muito mais vasto de necessidades de recursos humanos, muitos dos quais executam trabalho fora da própria obra, como os preparadores, técnicos de qualidade, técnicos de compras, orçamentistas, medidores, etc..

Os encarregados de obra são um dos recursos humanos que se enquadram nos operários executores e que desempenham funções vitais nas empresas de construção, apesar de não terem a mesma visibilidade que as restantes. Os mesmos são responsáveis no terreno pelos trabalhos a serem executados, em concreto, gerindo e liderando as equipas, executando as marcações, verificando a qualidade do trabalho, propondo métodos executivos, etc..

Acontece que, hoje em dia, os profissionais com estas competências apresentam uma idade média extremamente envelhecida e, mais preocupante que isso, o que se verifica é que não estão a surgir novos profissionais nesta função.

A construção civil é um dos setores onde o nível de escolaridade dos seus trabalhadores é dos mais baixos, sendo que a aquisição de competências acontece pela experiência na função. É norma que um profissional com a função de encarregado tenha iniciado a sua carreira como servente, depois pedreiro, de seguida chefe de equipa e, por fim, encarregado.

Para além da aquisição de competências, por via da experiência, existiam cursos profissionais para formar os interessados neste tipo de funções, mas após contacto com diversas delegações do IEFP a informação obtida foi unânime: presentemente, não existem cursos de formação para estas funções, sendo que em alguns dos casos informaram-nos que há mais de dez anos que estes cursos não existem por falta de interessados.

Encontramo-nos assim num paradoxo nos recursos humanos nas empresas de construção que é a necessidade de determinadas competências, determinantes para a execução dos seus objetivos de negócio, sendo que, neste momento, não existem profissionais suficientes disponíveis no mercado – não só não estão a ser formados, como também não estão a entrar nas empresas com o objetivo de evoluírem nas organizações para chegarem a essa função.

Como resolver este desafio

O mundo está a mudar e de uma forma cada vez mais rápida. Isto aplica-se a todas as profissões que conhecemos e a construção não é exceção, pelo que também terá que haver mudanças.

De igual forma, a digitalização de grande parte das atividades nas empresas levou à perceção que o trabalho manual é uma tarefa menor e de menor valor acrescentado para o processo produtivo. Esta perceção, bem como o estereótipo existente do “trabalhador das obras”, leva a que as atividades manuais ligadas à construção tenham uma imagem pouco apelativa, sendo por isso difícil de atrair interessados para estas funções.

Vencer este desafio passa por transformar não só a imagem do mercado da construção, o que poderá levar décadas a acontecer, mas é premente e imperativo mudar a imagem que temos dos seus profissionais.

Juntando a revolução digital às competências de gestão, é possível tornar as funções ligadas à construção menos cliché e mais tecnológicas, dotando, por exemplo, os encarregados de meios tecnológicos e de formação que lhes permitam gerir com mais eficiência as suas tarefas.

Por que não dotar os encarregados de tablets com toda a informação da obra, cursos de gestão de equipas, dar-lhes um local de trabalho mais aprazível para estudar os projetos a executar ou para ter uma reunião? Assim, o encarregado deixará de ser visto como um “capataz” para executar as tarefas, para passar a ser visto como um gestor.

Com o tempo, esta mudança de imagem permitirá esbater o estigma que existe face às funções manuais na construção civil e torná-las mais sedutoras, atraindo mais interessados e melhorando a imagem do setor da construção.

Caso não sejamos capazes de lidar com este desafio, o setor da construção poderá vir a ser afetado na sua capacidade produtiva pela redução dos profissionais qualificados para execução destas tarefas, reduzindo o seu peso na economia e o seu valor acrescentado.

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