Já aqui escrevemos sobre o “show” de Joe Berardo no Parlamento, que teve mais de momento lúdico (especialmente para o próprio) do que de oportunidade para esclarecer o que quer que seja. Os deputados prenderam-se a questões acessórias, em vez de tentarem saber mais sobre o porquê de Berardo ter recebido tanto dinheiro de um banco do Estado para comprar ações de um banco privado concorrente, o BCP. E enquanto nos entretemos com “gente que não sabe estar”, há quem tente passar pelos pingos da chuva. O que se passou com os créditos concedidos a Berardo é resultado de uma arreigada cultura de promiscuidade entre política e negócios, com sociedades secretas e lobbies diversos à mistura.
Porém, na origem do problema – que diz respeito também a outros “comendadores”, como pode ler nesta edição do JE – está algo mais do que a simples tentativa de controlo da banca e dos grandes negócios por parte do poder político. É algo que decorre de uma maleita mais profunda e difícil de tratar: a crónica escassez de capital em Portugal.
Olhemos para a história do BCP. Jardim Gonçalves era um CEO todo poderoso porque o banco tinha uma estrutura acionista dispersa, que gravitava à volta do banqueiro. Inicialmente, tal aconteceu porque fazia parte da estratégia de Jardim. Mais tarde, após sucessivas aquisições, passou a dever-se ao facto de o BCP se ter tornado grande demais para o nosso país. E quando, aproveitando a semi-reforma de Jardim Gonçalves, Berardo e outros ‘comendadores’ tentaram deitar a mão ao BCP, fizeram-no com dinheiro emprestado pelo banco do Estado e sem as necessárias garantias, dando a entender que houve dedo político no assunto. Se existisse capital privado a sério em Portugal, isto não teria sido possível, ou no mínimo teria sido mais difícil.
Um país sem capital torna-se dependente dos governos e subserviente perante os estrangeiros. É este o nosso drama, do qual só conseguiremos sair com mais trabalho, menos ‘esquemas’ e uma visão estratégica de longo prazo.