Cimeira do G7 marcada pelo acordo com o Irão

A marcação – sem contestação da parte de Teerão – da assinatura do acordo entre os EUA e o Irão mudou tudo: Donald Trump será recebido como o salvador da economia global. Haverá com certeza tempo para conversas sobre a Ucrânia, a China e a IA.

Cimeira do G7 marcada pelo acordo com o Irão
G7 bandeiras

O acordo com o Irão, a guerra na Ucrânia e desequilíbrios económicos globais – que agora os sete países mais ricos do mundo se encarregarão de considerar tendencialmente resolvidos – estarão em cima da mesa da cimeira do G7. Que repentinamente mudou quando os Estados Unidos revelaram – sem que Teerão o contestasse – que o acordo com o Irão será assinado sexta-feira em Genebra, cidade suíça muito próxima da pequena cidade francesa, Évian-les-Bains, onde decorre o encontro. A primeira alteração serão os rasgados sorrisos com que todos vão receber o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem com certeza todos dedicarão palavras de agradecimento e encómios vários, deixando de parte aquilo que para muitos (mas mesmo muitos) analistas foi uma guerra de três meses e meio completamente inútil e que, na substância, quase nada mudou. A não ser, claro está, o sobressalto inflacionista e o derradeiro alinhamento pela oferta energética dos Estados Unidos. Para trás ficará o semblante carregado e os sorrisos muito amarelos com que Trump foi presenteado nas semanas mais próximas.

A segunda alteração da ordem de trabalhos será a introdução de um tema que não deve merecer contestação: os líderes europeus do grupo estão prontos para suspender as sanções ao Irão. Afinal, exatamente aquilo que sucedeu, de forma indireta, em 2015: o Acordo Nuclear do Irão (JCPOA), foi aceite pela União Europeia e pelos Estados Unidos. Cruzando o G7 com o chamado Grupo P5+1, em 2015 só o Japão e o Canadá (28% do G7) produziram críticas ao tratado. Agora, estarão todos de acordo, sendo pelo menos essa a expectativa de Washington. Mesmo assim, uma das perguntas mais insistentes será com certeza sobre o que raio podem afinal esperar do Estreito de Ormuz, uma via que, em 2015, ninguém imaginava fechar à navegação, iranianos incluídos.

França, Alemanha, Reino Unido e Itália assinaram uma declaração conjunta esta segunda-feira, na qual afirmam considerar “vital” que as negociações entre Irão e Estados Unidos cheguem a uma conclusão bem-sucedida. Além disso, consideram apropriado suspender as sanções à República Islâmica se a resposta iraniana for clara sobre o programa nuclear. Mas, a acreditar no ‘histórico’, Trump considera o assunto da sua inteira e exclusiva responsabilidade – até porque, convém recordar, todos os países europeus trataram de ‘fazer de mortos’ quando Washington apelou ao seu auxílio na guerra. E o presidente dos Estados Unidos não costuma esquecer os enxovalhos – mesmo que o seu auxiliar nestas matérias, o neerlandês Mark Rutte, não esteja desta vez nas redondezas.

 

Cruzada anti-China

Por outro lado, a Europa tentará, dizem os analistas, encontrar uma estratégia comum contra a China e os seus avatares comerciais, mas a estratégia entra diretamente em conflito com os planos de Washington, que prefere negociar sozinho com a China, sem ter de se haver com os ‘estados de alma’ do resto do grupo. Para um deles, pelo menos, o Japão, tudo o que vier a ser decidido contra o Império do Meio ainda pecará por insuficiente e tardio. França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Canadá terão por certo – pelo menos alguns deles – algumas reticências em afrontar o poderoso ‘inimigo’, para mais numa altura em que o grau de confiabilidade do ‘amigo’ americano, suas tarifas e suas iniciativas erráticas, são pouco apreciadas.

Entretanto, antes da reunião, a França demonstrava grande interesse em alcançar um acordo dentro do G7 com países do Oriente Médio sobre as exigências que o governo iraniano pode fazer em relação aos seus programas nucleares e de armas. Daí o facto de esses países terem sido convidados para estarem presentes em Évian-les-Bains. Trump fará gosto em conversar com os representantes do Qatar, Emirados Árabes Unidos e Egipto.

 

Recordar a guerra na Ucrânia

Enxotado para fora das manchetes pela guerra no Irão, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, lá estará em Évian-les-Bains – sendo que Trump com certeza tem uma ideia de quem ele é, mesmo não lhe dispensando nenhum carinho especial. Ou foi essa a ideia que vingou, quando, em fevereiro passado, voltou a dizer que a Rússia devia fazer parte do G7 (ou G8, como era antes de Moscovo ser expulsa em 2014, logo a seguir às suas aventuras na Crimeia).

Depois de várias tentativas de alcançar um cessar-fogo, os líderes europeus vão usar a cimeira para tentar obter o apoio do presidente dos Estados Unidos para iniciar novas negociações de paz entre Moscovo e Kiev. Reino Unido, Alemanha e França, o chamado grupo E3 (é uma mania como outra qualquer, esta de dar nomes aos grupos) consideram a ocasião como a oportunidade ideal para trazer o assunto de regresso às ‘letras gordas’.

O E3, todo ele presente no G7 (e também no P5+1) reuniu no último domingo em Londres com Zelensky, que transmitiu a proposta de abrir uma linha de “diálogo direto” entre Kiev e Moscovo “com a participação ativa dos Estados Unidos e da União Europeia” para servir “como ponto de partida para negociações”. Maçadores, os russos não concordam. Mesmo assim, os quatro assinaram uma declaração conjunta a favor de um cessar-fogo com a Rússia que levasse em conta os interesses europeus e servisse como “ponto de partida para negociações”, com garantias sólidas de segurança para a Ucrânia e incluindo o envio de uma força multinacional. Maçadores, os russos não concordam.

Para todos os efeitos, vale a pena perceber-se em que pé está Trump, que se desinteressou do assunto quando percebeu que, do outro lado, Vladimir Putin tratou sempre de não ligar nenhum ao que Washington lhe dizia.

 

E ainda a inteligência artificial

Emmanuel Macron reuniu uma dezena de líderes de tecnologia, incluindo Sam Altman, diretor da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic, com o objetivo de abordar os avanços mais recentes na área da inteligência artificial, bem como seus potenciais riscos e oportunidades. O assunto é um aborrecimento para a Europa: o bloco dos 27 está fora da investigação mais avançada naquela matéria – área em que a batalha entre os Estados Unidos e a China não deixa margem para o ‘velho’ continente, que entrou tarde na refrega, deixou-se ultrapassar pela concorrência e optou pela pantomina do costume: legislar, legislar, legislar sempre – desta vez sem saber muito sobre o quê, pelo menos a acreditar nos críticos norte-americanos. Pior ainda: uma parte substancial do dinheiro que serve para financiar a investigação norte-americana é oriundo da Europa, uma vez que – mas isso não consta da agenda – não havendo por cá instrumentos de mercado que fixem capital na Europa, ele segue, como se isso fosse normal, para os fundos norte-americanos e para Wall Street.

A agenda também inclui a proteção de menores face à internet e o desenvolvimento de infraestruturas digitais. Mas o debate sobre a tributação de grandes empresas de tecnologia não será incluído, não vão os CEO do setor ficar de pé atrás com Évian-les-Bains.

Relacionado